domingo, 19 de janeiro de 2014

Judite.

Por que seus dentes tortos não me saem da mente? Seus cabelos secos e mal cortados, suas roupas velhas manchadas de água sanitária. Ah, Judite... Acho que estou apaixonado por você. Minha mãe sempre dizia que eu só me apaixonaria uma vez na vida, e olha o que acontece: me apaixono pela empregada.
Tudo começou quando eu provei o seu feijão. Antes disso, as camisetas que mostravam seu decote não me incomodavam, seus shorts apertados não me davam vontade de sentir suas coxas grandes. Sentir seu cheiro nas minhas roupas é angustiante, ouvir seu canto desafinado no chuveiro me faz imaginar sua nudez entrelaçada à minha. É por isso que eu não quero te dar férias, Judite. Eu quero te ver sempre aqui comigo. É por isso que eu não paguei o décimo terceiro, nem assinei sua carteira, nem deixo você ir embora na hora que deveria.
Eu sei que errei, que eu não devia ter sido tão duro contigo. Por favor, não seja tão dura comigo e retire esse processo contra mim. Eu sei que você ainda pode falar com seu advogado e resolver as coisas.
Já basta a dor que vou sofrer por não ter você por perto...
Estou com saudade, Judite.

bang bang

Como você consegue
despertar em mim
essa batida estranha?
Esse ritmo de samba
sobe meu coração e
faz um carnaval com
minha cabeça.
Esses seus olhos grandes
e profundos, vazios,
misteriosos, o que
você fez comigo?
O que é todo esse
pow pow pow
bang bang tuff
tamborilando entre
a minha boca e a sua?
Ah, eu sei bem disso
você também me deseja.
Boom boom
bang bang
tatata.

cagando e andando

eu tenho a ligeira impressão de que estou pouco me fodendo
não é impressão, eu eu estou pouco me fodendo mesmo
estou pouco me fodendo pras suas maiúsculas no início da frase
cagando e andando pras suas vírgulas
pros seus problemas
to pouco me fodendo pras linhas tortas
eu gosto de linhas tortas
eu não to nem aí se você não quer mais transar
não é como se você fosse a última do mundo, então foda-se
to pouco me fodendo pra ressaca, pra culpa, pra essas pessoas amargas
eu to amargo, mas eu sempre fui assim
eu to pouco me fodendo se você gosta de mim assim
então vai, me dá um ponto final
que se foda.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Dia Ruim.

Hoje eu tive um dia de merda. Sabe aquela hora que nada parece dar certo? Então, é isso. Pelo menos eu não sou corno. Seja lá qual for a situação, é melhor do que ser corno. Dizem que isso acontece pelo menos uma vez na vida, e já aconteceu comigo. Matei a vadia. Um tiro na cabeça dela e outro na cabeça do amante, dois meses depois. Não podia arriscar matar os dois de uma vez só, ia ficar muito na cara. Só a amiga dela sabia do amante, mas e daí? Algum tempo depois eu matei a amiga dela também, só por precaução.
Mas hoje eu não sou corno, graças a deus. Eu to puto por outra história, mas já estou indo resolver. Carreguei minha arma e enfiei dentro da calça.
As balas já estão acabando...

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Amor.

Preciso aprender a amar sem mascarar meus sentimentos em cortinas de cetim. Preciso ser fiel, corar por uma só, dar-lhe meus pensamentos, minhas horas vagas. Preciso não almejar qualquer outra boceta, não planejar orgias e não imaginar diferentes futuros pra mim sem ela. Preciso fugir do impulso de acabar com tudo, e dar valor antes de perder. Preciso morder seus lábios e tratá-la como a única vagabunda que já desejei, esquentá-la na cama como meu bem mais precioso. Preciso dividir meus medos, quebrar minhas vontades, confiar, me deitar no seu colo e chorar, confessar verdades e transar de novo.
Mais do que isso; preciso come-la sem pensar em você.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Paixão de mar.

Tua água me afogou
E a vida veleja ao fim
Sem olhares culpados
Sem despedidas vis.
Seja por próprias cordas
Ou pelas do destino
Amarra meu barco ao cais
Dorme na voz do mar
Chora água com sal
Procura-me em destroços
Amaldiçoa as águas
E ancora minha alma.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Alberto.

Sinto falta da gente falando
De gente que já foi embora
Antes de você ir também.
Aqueles barulhos do rádio
Que eles chamam de música
Só eu sobrei pra não entender.
E as novelas que assistimos
Não valem a pena ver de novo.
Por que tinha que beber tanto?
E não fez a merda do plano de saúde.
Eu avisei, Alberto, mas é teimoso...
"Deixa ele", deixei, e no que deu?
Me deixou plantada nesse sofá
Fazendo palavra cruzada
E reclamando.

Era pra você ser a minha insulina.