domingo, 7 de dezembro de 2014

Segredos.

Sabiste
dos sábios sabiosos
segredos segregosos.
Não viste, porém,
horror tão horrorosos!
Seguiste,
com olhos curiosos,
caminhos tortuosos.
Sumiste
das vistas dos vistosos,
sorriste
pra homem veludoso.
"Aviste
casebre tenebroso
que lá está seu gozo."
Mediste
perigo perigoso.
"Desistes?
Me achas duvidoso?"
Caíste
em falas tão sedosas,
entraste
no escuro tão negroso
com o homem oleoso
que diz-te:
"Sumiste
dos olhos dos vistosos
e em meus braços pegajosos
caíste."
Tão tristes
teus olhos curiosos
azuis depreciosos!

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Invisíveis.

Nas docas, nos becos, nos esgotos
Nas praças abandonadas, nos bueiros
Ratos rateiam as ruas enratoadas
Baratas nascem de profundezas impensáveis
Distantes de olhares repulsivos
Monstros nascem da escuridão
Animais são criados da fome
Visíveis e risíveis aos olhos de Deus.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Diálogos (I)

- Às vezes eu tenho a impressão de que encontrei você no meio da minha muvuca. É como se eu tivesse enfiado a mão no bolso furado da minha calça e puxado você de lá.
Como um objeto de valor perdido em uma rua de subúrbio, você é uma pessoa de valor, perdida nesse mundo fétido.

- E você é um doce poeta incompreendido.

- Mais incompreendido do que doce poeta, querida.

sentir (II)

O que você sentiria se ela fosse embora?

O que? Agora? Eu não faço a menor ideia. Acredito que seja mais fácil descrever o fim do mundo do que o fim de nós. Toda a cor desapareceria, com certeza, como uma foto antiga. Os dias sem ela ficariam mais cinzas, mais arrastados, mais monótonos. Eu ficaria mais cinza. Não é a toa que as pessoas não param pra pensar sobre isso, a ideia já me dá lágrimas aos olhos, então eu vou voltar à comparação com o fim do mundo. Um escritor uma vez disse "Assim expira o mundo: não com uma explosão, mas com um suspiro." Eu nunca entendi o que ele quis dizer com isso, mas não é um suspiro que eu queira ouvir.


(a)

Alou

Você está aí? Pode ler o que eu escrevo? Pode me ouvir? De onde você veio? Como veio parar nesse fim de mundo de palavras chatas e sentimentos supérfluos? É a sua primeira vez aqui? É a última? Você me acompanha? Lê o que eu escrevo, sinto, falo? Já me ouviu falar? Se não, como imagina que seja minha voz? E minha aparência?
Existe mesmo algum sinal de vida do outro lado desta tela? Se existe, por que não veio ao meu encontro? Se me vê, por que não me cumprimenta? Eu não sou um jornal velho, eu sou real. Eu EXISTO, então MANIFESTE-SE. Eu sinto sombras ao meu redor, sombras sem identidade - como as minhas. Elas são as suas? Elas vem com a sua presença? Eu sinto, mas eu não consigo ver. Por que tudo está tão frio? Por que as coisas perderam a cor? As coisas aí do outro lado estão muito diferentes? O que você entende de solidão?
Sabe como curá-la?

sentir (I)

O que você sente quando a beija?

Num instante antes, é como se tudo estivesse pulsando... Como se tudo fosse absolutamente VIVO; as calçadas, os carros, os prédios. Como se todos eles tivessem ouvidos, como se estivessem me olhando, assistindo, esperando por uma reação minha. Então acontece. Os lábios dela tocam os meus e o resto se cala. A multidão de pessoas que eu conheço magicamente desaparece do meu subconsciente, minhas mãos sentem os cabelos dela e todos os pêlos do meu corpo se arrepiam ao mesmo tempo. Até o relógio para pra ver o que está acontecendo, e os pássaros param de cantar. O sol só brilha pra nós dois, e o resto do mundo permanece - nesse instante - em breu, esperando para ser descoberto. Eu imagino que, para os outros, haja uma sensação de falta enquanto eu a beijo, discreta e inexplicável. Como se eles pudessem SENTIR o que estão deixando pra lá. Eu imagino que, se pudessem, sairiam se beijando pela rua, só pra fugir dessa monotonia que os persegue. "Se eles soubessem que estão tão vazios, amor, eu sei que o fariam."


(a)

sobre as calotas polares

Eu não vou escrever sobre uma sociedade em decomposição. Eu vou escrever em decomposição, como a sociedade que me criou, mas não vou fazer isso de forma depressiva e muito menos engraçada. Com a minha escrita, eu espero ser sincero. Com a minha sinceridade, eu espero alcançar sua profunda indignação, nada mais nada menos, só isso. Talvez então eu consiga mover uma massa forte o suficiente pra terminar de estragar tudo que existe hoje, para então tentar criar algo realmente novo. Talvez eu só consiga a rejeição daqueles que negam os problemas, que passam os dias em ônibus lotados tentando lembrar de coisas boas, mas até isso já vai ser alguma coisa. Meu objetivo, no momento, não é claro. As minhas aspirações foram sugadas, etiquetadas, numeradas e impressas em uma folha de papel. Nada - e quando eu digo NADA, eu deixo de lado qualquer sentimento que eu tenha por alguma coisa ou alguém - faz sentido em um país fétido como esse, em um mundo podre como o nosso. Eu não ligo se as calotas polares estão derretendo, não ligo se os macacos-prego estão entrando em extinção, mas essas coisas começaram a me afetar. Minhas palavras estão desaparecendo e, para um escritor meia-boca como eu, isso é o fim do mundo.