quarta-feira, 30 de maio de 2018
Talvez eu queira desligar e só não saiba como. Minha alegria aparente pode ser muito bem um mecanismo de defesa que me protege de sentir qualquer coisa que vá além do básico. Eu atravesso a rua, eu como vegetais, eu faço exercício. Não me lembro de ter sentido a pele de alguém com um intuito não sexual, será que isso só existe na infância? Hoje eu vi um filme que me lembrou dela. Será que ela teria orgulho de todos os nós que demos na sua ausência? Será que ela chegaria aqui e desistiria do mundo, de novo e de novo, como nós fizemos? Passo a mão no meu cabelo pra procurar conforto. Acalme-se, menino. Um passo de cada vez.
sábado, 27 de janeiro de 2018
Tempo.
Posso não saber quem você é, mas dificilmente sei quem eu mesmo sou. Também, né? Depois de tantas voltas e voltas, é reconhecível o meu direito como mulher de me sentir perdida. Tem um cigarro pra alegrar meu dia? Não, claro que você não tem. Fumar faz mal. Tabaco? Imaginei. Eu pessoalmente acho esse negócio de estar viva um pouco demais pra mim, não vale o custo. Ta vendo aqueles três homens que vira e mexe olham pra minha bunda? Será que eles acham que vão me comer ou só apreciam todas as bundas como uma cadela no cio aprecia o cachorro vira-lata por trás do portão? Só um minutinho, amor, já volto.
Não voltei. Não tenho tempo pra isso, sou uma mulher muito o-cu-pa-da. Ocupada em não viver, tarefa em tempo integral. Me esforço para me desocupar de tudo. É um paradoxo, como dizem. Ocupação: de-so-cu-par-me. Confuso. Arrumo um cigarro na rua porque sou uma mulher bonita, mas e quando eu não for? Só tenho mais grana pra passar mais dois meses, mas e depois?
Bobagem. Não gosto e nem acho que faz bem me preocupar, por isso eu sou uma pessoa zen. Afinal, a pré-ocupação está definitivamente na minha lista proibida de afazeres. Pensar. Tentei deixar de pensar como primeiro item. Não funcionou, aí eu coloquei como segundo item. Lembrando dos idiotas do bar, é melhor riscar pra não ter o risco de me tornar um deles. Paro e tento apreciar a vista. Depois o cachorro. Depois a bunda de outra mulher. Nada. Queria terminar o pensamento com alguma ironia, mas a vida não tem graça e eu também não tenho tempo.
Não voltei. Não tenho tempo pra isso, sou uma mulher muito o-cu-pa-da. Ocupada em não viver, tarefa em tempo integral. Me esforço para me desocupar de tudo. É um paradoxo, como dizem. Ocupação: de-so-cu-par-me. Confuso. Arrumo um cigarro na rua porque sou uma mulher bonita, mas e quando eu não for? Só tenho mais grana pra passar mais dois meses, mas e depois?
Bobagem. Não gosto e nem acho que faz bem me preocupar, por isso eu sou uma pessoa zen. Afinal, a pré-ocupação está definitivamente na minha lista proibida de afazeres. Pensar. Tentei deixar de pensar como primeiro item. Não funcionou, aí eu coloquei como segundo item. Lembrando dos idiotas do bar, é melhor riscar pra não ter o risco de me tornar um deles. Paro e tento apreciar a vista. Depois o cachorro. Depois a bunda de outra mulher. Nada. Queria terminar o pensamento com alguma ironia, mas a vida não tem graça e eu também não tenho tempo.
quinta-feira, 25 de janeiro de 2018
Apareça.
Diga-me que está aí, escondido entre as consistências que impedem que o meu munto colida com o seu. Diga-me que compreende minhas verdades, que entende o que eu falo, o que eu penso, o que eu sinto. Diga-me que você existe. Diga-me que não é tudo em vão, que a superficialidade é apenas temporária e já vai passar - não: diga-me o contrário. Me leve a crer que a minha desesperança pode ser compreendida e é real. Diga-me que eu sou real, que não sou uma multidão de palavras sem sentido repetidas e reorganizadas até parecerem lamúria. São súplica. Estou pedindo-lhe quase em silêncio que apareça antes que eu me vá de vez. Diga-me por onde andou e o que aprendeu que eu ainda não sei. Convença-me de que eu não o sei. Respira-me vez em outra e dê-me novos ares para respirar. Já sou velho e cansado, mas apenas por desistência. Meu corpo resistirá mais do que a minha mente, tenho certeza. Salva-me do meu silêncio, do meu casulo. Diga-me que nem toda a minha angústia foi em vão, que consegue ler a si própria nas minhas palavras. Diga-me que a ideia de verdade é uma doença crônica enquanto o presente cospe na minha cara e me mostra que eu não tenho valor. O universo não tem o menor respeito pela dor, mas diga-me que vai passar - apesar de todos os indícios gritando o contrário.
segunda-feira, 30 de outubro de 2017
Tosco
Teimo em repetir palavras e erradicar acentos por descaso ou revolta com o padrão normativo do dizer. Teimo em repetir: não sois mais e nem quereis ser. Ser mais implica em fazer melhor sempre que puder e o vosso talento é a mediocridade. Melhor não, pensa o patético boneco ventríloquo. Farei o suficiente que puder e nada mais. Ocasionalmente menos, mas nunca mais. As ideias que te moldam não são de progresso, mas também não sucumbem ao mal. O que será que é o mal? Se aprendemos a matar, matamos. Se aprendemos a roubar, roubamos. Se não aprendemos a melhorar, caímos e continuamos fingindo estar de pé.
sábado, 15 de julho de 2017
Compostura.
Comecei a vida fazendo, mas meu sonho er'escrever. Arrisquei a sorte nos contos, errei e desisti. Comecei a escrever eventos, detalhes e acréscimos, entalhes de revista e lacunas de jornal, cansei. Cantei a nova bossa na manhã serena, aplaudiram e choraram sem querer, viram que eu podia oferecer alguma coisa nova além do MPB. Mas se eu falhar, o que há de vir a ser nessa pintura? Perco a pose e a compostura só de pensar, mas aí eu vou pedir. Vou chorar com meu pedir, mas vou pedir. Jamais vou desistir, mas e se for? É direito meu ser vendedor de flor numa cidade que proíbe poesia. É de encargo meu a nostalgia pr'essa burguesia triste e sem sal. E mesmo salgada a vida, engulo a verdade compriiida que me obriga a desandar. E pra ajudar a vencer a fadiga, eu compro bebida pra sala de estar. Agora eu vou poder cantar até o sol raiar, mas não mais que isso. Me enterro no colchão de pedra e torço pra não levantar. A exceção me dita a regra e logo eu volto pro lugar. Vou trabalhar, vou trabalhar, vou trabalhar.
quinta-feira, 13 de julho de 2017
Espelhos.
Tenho-me em muitos lapsos e em memórias de histórias que me contam sobre mim. Aliás, foi em uma dessas minhas desventuras que eu perdi meus sapatos, atordoado pela ketamina e ludibriado pelo não-contar das horas, por que não? Na época me recordo de estar fugindo da noção espacial e convencional do tempo — em segundos, minutos, dias, etc. — e recordo-me de ter conseguido chegar a me perder nos meses. Não era delirante, senão em seu âmbito acadêmico, uma pesquisa que visava justamente a desinformação. Raras foram as vezes em que voltei a passar tanto tempo sem olhar para manchetes de jornais e sem saber o que acontecia ao meu redor. Mas foi nessa época que eu percebi que não fazia a menor diferença. Fora os entorpecimentos usuais, passava bastante tempo em casa, à deriva social. Levei a sério o experimento. Pedi para os meus companheiros de bar que me contassem apenas o que fosse estritamente necessário para a minha vivência, salvo calamidades públicas de ordem superior. Meu cotidiano não mudou e eu não me senti mais deslocado do que nos lugares aos quais eu me realoco. O tempo livre, por ouro lado, esticou-se. Sem que eu precisasse desgastar-me aprendendo sobre um universo que, com ou sem mim, permanecia em processo lento — imperceptível, eu diria — de transformação, minha barba crescia e apara-la tornou-se um hábito agradável. Eu pude dar atenção total a mim, à minha aparência e ao meu psicológico agora que o tempo não me convinha. Fui ficando mais bonito, acredito eu, mas pode ser ilusão da minha cabeça. No geral, comi melhor, me exercitei mais e me entorpeci menos. Ainda assim, mais do que o suficiente.
Quando voltei ao presente, haviam passado-se cinco meses e meio. Nada mau. Alguns relacionamentos próximos haviam sido deixados pra lá, outros nem mesmo me vieram à memória senão muito depois da minha recobrada de medida. Percebi que, bem ou mal, estamos mais sozinhos do que pensamos e apenas fazemos o suficiente para fugir dessa realidade pouco tragável. Não estamos assim por obrigação, por assim dizer: gostamos de estar. Duvida? Pois lhe dou o exemplo dos ônibus, onde sentamos cuidadosamente distantes um do outro para evitar um contato maior com alguém "que, até onde sei, pode ser um maníaco ou coisa pior". A verdade é que precisamos de espaço. Preservamos lugares relativamente arejados, embora passemos a maior parte da vida em cubículos. Mas gostamos dos cubículos também, talvez justamente por essa mesma causa.
É engraçado o que se percebe quando se olha pro lado contrário ao da percepção: não existe lado contrário. Em todo lugar, a todo momento, existe algo novo a ser descoberto ou transformado. Hoje escrevo sob um diferente ângulo à respeito da imortalidade: a considero sábia, porém perigosa. Ontem era só perigosa e amanhã poderá ser alguma coisa a mais. Ou a menos, por que não? Para todos os efeitos, porém, é preciso fazer duas considerações. A primeira é um tanto óbvia, mas ainda de suma importância: o homem faz o relógio, não o contrário. A última, que a realidade é uma amiga da qual nenhum de nós deve perder total contato por muito tempo.
Duvida?
Quando voltei ao presente, haviam passado-se cinco meses e meio. Nada mau. Alguns relacionamentos próximos haviam sido deixados pra lá, outros nem mesmo me vieram à memória senão muito depois da minha recobrada de medida. Percebi que, bem ou mal, estamos mais sozinhos do que pensamos e apenas fazemos o suficiente para fugir dessa realidade pouco tragável. Não estamos assim por obrigação, por assim dizer: gostamos de estar. Duvida? Pois lhe dou o exemplo dos ônibus, onde sentamos cuidadosamente distantes um do outro para evitar um contato maior com alguém "que, até onde sei, pode ser um maníaco ou coisa pior". A verdade é que precisamos de espaço. Preservamos lugares relativamente arejados, embora passemos a maior parte da vida em cubículos. Mas gostamos dos cubículos também, talvez justamente por essa mesma causa.
É engraçado o que se percebe quando se olha pro lado contrário ao da percepção: não existe lado contrário. Em todo lugar, a todo momento, existe algo novo a ser descoberto ou transformado. Hoje escrevo sob um diferente ângulo à respeito da imortalidade: a considero sábia, porém perigosa. Ontem era só perigosa e amanhã poderá ser alguma coisa a mais. Ou a menos, por que não? Para todos os efeitos, porém, é preciso fazer duas considerações. A primeira é um tanto óbvia, mas ainda de suma importância: o homem faz o relógio, não o contrário. A última, que a realidade é uma amiga da qual nenhum de nós deve perder total contato por muito tempo.
Duvida?
Roma.
Como encontrar resposta para o sentimento? Quando vem, chega rasgando por dentro, incontrolável e imprevisível: como uma rachadura no gélido raciocínio. Amar e sofrer partem do mesmo princípio: metamorfosear. São opostos da mesma prima causa, eu suponho. Apenas posso supor, nada me é tangível desse ângulo. Sinto frio, mas não vem da pele. Sinto solidão mesmo próximo aos meus mais queridos entes e sinto fadiga em plena saúde física. E irônico que, depois de todas as conclusões e teorias, minhas palavras extinguam-se por um instinto que me é além-lógico, resumidas sempre em quatro inexoráveis letras. Pergunto-me, no auge do meu delírio, se esse borbulhar me torna mais ou menos animalesco. Afinal de contas, não sei o rumo da evolução humana. Por maior que seja a minha capacidade de pensamento, meu ínfimo conhecimento à respeito do que antecede a minha existência nunca me será suficiente sem um relance do que seria a eternidade. Sendo assim, é impossível determinar se estou dando um passo pra frente ou dois pra trás — segundo minha definição de impossibilidade.
Do jeito que vejo lá fora, não sobreviveremos por muito tempo. É uma pena, entretanto, que todas as minhas considerações até hoje tenham sido vazias ante à complexidade do amor. Sem ele, temo que, ao final de meus humildes dias, terei sido resumido a alguns gigabytes de memória num imenso oceano de palavras esquecidas. Minha real essência será sucumbida à incompreensão e nem mesmo terei tido o luxo de saber se minha inconsistência possui, de fato, alguma consistência em inconsistir. Isso se, claro, considerarmos que existe qualquer diferença que seja entre os loucos e os incompreendidos.
Por essa razão talvez que, a meu ver, o inentendimento me é mais desesperador que o oblivion. Afinal, lembrar-me futuramente não me deixará menos morto — futuramente. É irresponsabilidade ignorar que de nada vos será útil a lembrança da minha carne, salvo por uma possível proeminência desse meu já protuberante ego — que se esvairá antes mesmo dos meus órgãos e tecidos. Em suma, quem eu sou nem mesmo representa o que eu escrevo, uma vez que minha mente é apenas um tradutor das circunstâncias às quais eu fui submetido até aqui.
A ideia que é propagada, por outro lado, independe do seu primigesto uma vez que é absorvida parcial ou integralmente por seus futuros hospedeiros. Isso significa dizer que, uma vez que eu fosse decifrado, a vida do meu raciocínio não mais estaria atrelada à minha própria e se elevaria à condição de imortalidade momentânea. Mas nada disso acontecerá — ou não terá valor senão semântico — se não for considerado o sentir na minha pele ante o quadro de palavras. De nada terá valido a pena o meu doer.
Essas, claro, são apenas considerações. Ninguém é capaz de prever o futuro e, caso possível fosse, duvido que seria eu — visto o meu total desjeito com o presente atual. Sorrio enquanto me enredo nesse labirinto lógico. Delírio é uma boa palavra ante à inconstância tamborilante no meu peito. Bem-me-quer, mal-me-quero?
Do jeito que vejo lá fora, não sobreviveremos por muito tempo. É uma pena, entretanto, que todas as minhas considerações até hoje tenham sido vazias ante à complexidade do amor. Sem ele, temo que, ao final de meus humildes dias, terei sido resumido a alguns gigabytes de memória num imenso oceano de palavras esquecidas. Minha real essência será sucumbida à incompreensão e nem mesmo terei tido o luxo de saber se minha inconsistência possui, de fato, alguma consistência em inconsistir. Isso se, claro, considerarmos que existe qualquer diferença que seja entre os loucos e os incompreendidos.
Por essa razão talvez que, a meu ver, o inentendimento me é mais desesperador que o oblivion. Afinal, lembrar-me futuramente não me deixará menos morto — futuramente. É irresponsabilidade ignorar que de nada vos será útil a lembrança da minha carne, salvo por uma possível proeminência desse meu já protuberante ego — que se esvairá antes mesmo dos meus órgãos e tecidos. Em suma, quem eu sou nem mesmo representa o que eu escrevo, uma vez que minha mente é apenas um tradutor das circunstâncias às quais eu fui submetido até aqui.
A ideia que é propagada, por outro lado, independe do seu primigesto uma vez que é absorvida parcial ou integralmente por seus futuros hospedeiros. Isso significa dizer que, uma vez que eu fosse decifrado, a vida do meu raciocínio não mais estaria atrelada à minha própria e se elevaria à condição de imortalidade momentânea. Mas nada disso acontecerá — ou não terá valor senão semântico — se não for considerado o sentir na minha pele ante o quadro de palavras. De nada terá valido a pena o meu doer.
Essas, claro, são apenas considerações. Ninguém é capaz de prever o futuro e, caso possível fosse, duvido que seria eu — visto o meu total desjeito com o presente atual. Sorrio enquanto me enredo nesse labirinto lógico. Delírio é uma boa palavra ante à inconstância tamborilante no meu peito. Bem-me-quer, mal-me-quero?
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