quarta-feira, 11 de julho de 2012

Fogo.

A alma que um dia pediu pra fazer agora reclama, e a pena se torna mais essencial do que o ato. O remetente se confunde, e a coragem se desfaz. O silêncio o corrói e ele cai. Desiste de chegar ao seu destino e dá a volta. Tenta crescer uma vez mais para o novo dia, e abraça a solidão em pedido de misericórdia. Quase se esqueceu que sua única e verdadeira companhia foi, é e sempre será a morte. Chorou sem som e gritou sem choro. Tentou limpar a alma e não conseguiu; era tarde demais. Se viu sorrindo ao pensar na outra, e aos poucos a memória da meretriz se consumiu nas chamas de um novo amor.

Fim.

Amar.

Te amar.
Fingir que esqueci de você e aparecer, brotar. Tomar um café sem gosto, rir do passado. Comer um biscoito ruim, acender um cigarro e ver televisão. Dividir um chocolate e sorrir do seu olhar. Enfeitar o presente com piadas que só a gente conhece, morder sua boca até você reclamar, ser alegre de um jeito triste e dividir uma cama pequena... e grande. Tomar chocolate quente com pão de queijo feito só pra gente, brincar de escrever. Brincar de brigar e te ligar dois minutos depois e me desculpar por não saber ficar triste com você. Busca-la em lugares aleatórios e reclamar. Fumar, e parar quando você pedir. Trocar o gosto da sua boca pelo arder da bebida, chorar. Rir, esquecer, lembrar. Te ligar e dizer que eu tô certo, e não te obrigar a acreditar. Te fazer feliz de novo e dormir. Acordar e cobrir suas pernas, te beijar e sorrir. Ver seus pensamentos tristes e te abraçar. Te ver sorrindo também e descansar.
Repetir.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Metamorfose.

O toque se vai e os olhos fecham. Corre pela espinha o frio ao caminhar, e a saudade bate dentro do peito a cada passo dado pra trás. Tenta gritar, mas nada sai. Quer chorar, mas de sua garganta vem um riso cínico, quase real demais. Sua mente salta para fora e se demite, e seu futuro borra o papel. As lágrimas, antes transparentes, são agora vermelhas. Seu jardim se torna uma floresta, sua coluna encurva e agora é capaz de andar com as mãos no chão. As orelhas crescem, o coração seca, a íris perde a cor e os caninos ficam maiores. Vira aquilo que resolveu virar; um animal, que agora vive para comer, dormir e trepar.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Drama.

Enquanto vem a solidão, tosca
A cama faz-se amiga exclusiva
O sono pesa o pensamento feito
Que logo deixa de incomodar

Goteira na mente suja, esgoto
Apodrece o bom e suja mais o podre
Começa em cima e faz fim no chão
Sozinho ele volta a chorar

Come na lama e pensa ser feliz
Enquanto poucos outros bons lamentam
Arreda o facho de lugar legal
Sossega tudo que é questionamento

Fecha a mente pra coisa ruim
Forja a força que jamais teve
Vai além do que jamais foi
E volta sem saber onde esteve

Pouco que se faz muito; errado
Muito que se faz pouco; sagaz
Mas pouco que aceita o lugar que tem
Nada mais é do que a obrigação que faz

Urgente.

As botas batem no chão molhado com força e respingam água no morador de rua do lado. Continua a correr. Passa por uma esquina onde há um acidente de carro, atravessa a rua sem olhar e vira no quarteirão seguinte. Percorre mais um pouco do caminho, ignora o assalto que parece acontecer na sua própria rua, avista o seu prédio e diminui a velocidade até parar. Descansa um pouco enquanto encaixa a chave na fechadura, abre o portão e se põe a subir, desajeitado e apressado, os três andares que o separam de seu objetivo. Já com a chave na mão, chega ao seu destino e abre a porta. Tira o chapéu, as botas, corre para o quarto e liga a TV. Pega o controle e muda de canal.
"Finalmente", pensa ele, enquanto senta e relaxa.
É o último episódio.

domingo, 8 de julho de 2012

A Feira.

Balões, pessoas e carroças, o tumulto continua enquanto se ouve o som de promoções no fundo. A feira se move, mas continua parada, Ergue as tendas e derruba, para novas nascerem ali. Cada passageiro compra, e cada vendedor surpreende. A mágica ali é discreta, mas é forte. Nada de truques, nada de coelhos, só alegria de crianças que entendem o que é; parte do outro mundo que se juntou para festejar. A morte convida todos para dançar, e o gato preto vê tudo sem se exaltar. A verdade por trás daquilo não é algo que Deus criou, mas sim o que ele tentou esquecer que tinha; resquício entre a realidade e a fantasia, que não chega a fazer parte de nenhum dos dois. É vida que segue independente da vida em si.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Moça...

Faço, refaço, desando, acalmo, respiro, arquivo, apresso, arrisco, me molho, me fodo, me esqueço, me drogo, me jogo, me limpo, me encanto, me lembro, caminho, tropeço, rastejo, invisto, navego, afundo, sorrio e choro... Tempo não passa enquanto ela diz, enquanto não volta a ser o que era.  E ainda me grita que só acredita quando vê ação, "palavras não movem o meu coração". Ah! Se o destino falasse o que eu senti, se o ouvido soubesse o que eu disse calado... Talvez duvidasse se tudo que fiz é forma de amor, bem pouco pensado, ou visse que só sou capaz de mudar quando eu percebo que pode acabar. É tarde demais, agora sou velho e me ponho a cantar:
- Oh! Moça bonita... Cadê você com seu caminhar, teu beijo molhado e sorriso pra dar?
Me lembro tão bem de faze-la corar, moça bonita...