Quarta-feira, 29 de Junho de 1938.
Eu acho que eu perdi a habilidade de ser rápido no gatilho, ser hábil com as palavras e com as pessoas. Já não sou mais conhecido pelos meus bordões brilhantes, pela minha atitude ao liderar um bando na próxima caçada, sabe? Estou ficando velho e sóbrio, sóbrio e velho, velho e velho. "Haha sei" Ah! Maria, não sabia que você estava aqui. "Você nunca sabe." Talvez. O que eu estava falando? Não consigo terminar o que eu começo que na minha linha de pensamento logo me vem outra coisa. Quê? Ah! A aguardente! Meu único e verdadeiro amor: a bebida. "Ah é?" Penso que não, tem o chapéu, mas não faz diferença agora. "Você e esse maldito chapéu, deixa eu lavar ele!" Não me interrompe, estou no meio de algo importante! "Ô grosso!" Grosso... Onde eu estava? Ah sim! Foram tantos que se foram que eu já perdi a conta de tanto rum que foi-me junto. Esses cangaceiros não me suportam, ta todo mundo cansado da guerra. Isso é uma guerra, certo? Não sei. Estou ficando burro, Maria, vou morrer logo. "Pare de bobagem, Virgo, cê só ta ficando chato!" Você não tem medo não? "Não, por que teria?" O governo ai chegar na gente, a gente ta liderando uma, uma... "Revolução." Isso! Revolução! O sargento ta na nossa cola, faz dois dias que invadiram uma casa de onde tínhamos acabado de sair, acho que foi um sinal de Deus pra gente ir embora. "Agora você ta ficando louco mesmo." Por que? "Deus não ta aqui." Ah é? E ta aonde? "Não sei, mas aqui não ta. Você vê deus aqui? Eu só vejo gente pobre morrendo de fome." Para e falar isso, você é sempre tão pessimista... "Mas é verdade." É... Talvez seja, mas eu acreditava no Padre Cícero. "Eu tenho que falar contigo, Virgo..." Tanta gente boa que já se foi... "Virgo..." O que foi? Pode dizer. "É importante, assunto sério." Ta, mas deixa eu terminar o que eu tava falando antes então, ok? "Ahn..." Onde eu estava? Ah é! A aguardente...
quarta-feira, 27 de maio de 2015
terça-feira, 19 de maio de 2015
Utopia.
Clona-me, domina-me e decifra-me no vazio das tuas pupilas, mergulha-nos nos teus sonhos, comete-me em delírios, começa-me e me termina em fogos, em pizza, em sonho,
Sossega.
Descansa-te no meu ombro, respira longa e amorosamente dos meus ares de amor eterno, me ajuda a contar estrelas, moedas e os segundos até que nos encontremos de novo, até que nossos corpos se batam como as ondas batem nos rochedos. Mata em mim a minha vontade, esconde minhas certezas no seu corpo e respira fundo meu perfume,
Para.
Me esquece, me abandona. Me deixa pra lá e aqui, sozinho e fútil, atordoado e inútil, sem saber o que me atingiu. Deixa-me com meus caprichos, com minhas manias, minhas dores, deixa quieto tudo aquilo que nos uniu,
Mas volta.
Eu quero um trago de amor e outro trago de desprezo.
Sossega.
Descansa-te no meu ombro, respira longa e amorosamente dos meus ares de amor eterno, me ajuda a contar estrelas, moedas e os segundos até que nos encontremos de novo, até que nossos corpos se batam como as ondas batem nos rochedos. Mata em mim a minha vontade, esconde minhas certezas no seu corpo e respira fundo meu perfume,
Para.
Me esquece, me abandona. Me deixa pra lá e aqui, sozinho e fútil, atordoado e inútil, sem saber o que me atingiu. Deixa-me com meus caprichos, com minhas manias, minhas dores, deixa quieto tudo aquilo que nos uniu,
Mas volta.
Eu quero um trago de amor e outro trago de desprezo.
Triste.
Eu tenho acordado triste. O café tem ficado fraco e as manhãs tem sido escuras, sabe? O sapato também tem arrastado muito no chão enquanto eu ando e eu to andando muito curvado. Meu médico diz que é só postura, mas a gente sabe que não é, né? E a casa ta numa calmaria que eu nunca vi. Não tem passos, risadas, gritos ou música alta... haha! Ta tão quieto que às vezes eu me espanto com um barulho que eu mesmo faço, mas já to me acostumando... Voltei a beber depois do trabalho. Aconteceu logo depois que eu voltei a escrever, mas não podia te contar antes, sabe como é. Antes eu tava frequentando aquele bar da esquina, mas as bebidas estavam acabando rápido demais, então agora eu vim beber em casa. As bebidas duram menos ainda, mas eu gasto menos dinheiro. Fiquei sóbrio pra escrever essa carta e escrevi porque to com saudade já. Se quiser eu passo aí qualquer hora... ou você passa aqui pra tomar café e falar das novidades, sei lá. Mas já aviso que o café tem ficado fraco...
Míngua.
Seguro a garrafa, solta
Gargalhada e volta
Volta a beber da pinga
Melhor que viver na míngua
Melhor que morrer sozinho
Faz um brinde a mim
Segura o copo assim
Bebe do copo assim, olha
Molha a boca na garrafa
Molha o bico n'outro bico
Beija a moça inteira, ri
Mas segura a garrafa
Não deixa cair de lado, caí
Mas ainda tem pra mim
Tem rum pra mim?
Tem rum pra mim?
Bebe indo e voltando
Bebe andando e transando
Cagando e andando, mas
Não derruba a garrafa
O copo, o pote, o cantil
Esquece tudo que é senil
Deita aonde? Deita lá, vai
Na calçada, no asfalto
Deita no baixo ou no alto
Eu não tenho preconceitos
Eu não possuo conceitos
Chega de birra, bebe mais
Bebe a minha companhia
Só mais um golinho, vai
Melhor do que viver na míngua
Do que morrer sozinho.
Gargalhada e volta
Volta a beber da pinga
Melhor que viver na míngua
Melhor que morrer sozinho
Faz um brinde a mim
Segura o copo assim
Bebe do copo assim, olha
Molha a boca na garrafa
Molha o bico n'outro bico
Beija a moça inteira, ri
Mas segura a garrafa
Não deixa cair de lado, caí
Mas ainda tem pra mim
Tem rum pra mim?
Tem rum pra mim?
Bebe indo e voltando
Bebe andando e transando
Cagando e andando, mas
Não derruba a garrafa
O copo, o pote, o cantil
Esquece tudo que é senil
Deita aonde? Deita lá, vai
Na calçada, no asfalto
Deita no baixo ou no alto
Eu não tenho preconceitos
Eu não possuo conceitos
Chega de birra, bebe mais
Bebe a minha companhia
Só mais um golinho, vai
Melhor do que viver na míngua
Do que morrer sozinho.
Bóreas e Aurora.
Que de Ana, Bruna e Amanda
Despertou, em mim, essa criança?
Que atingiu a minha alma branda
Ou que fez-me derramar lembrança?
(Ah! Aurora...)
De doente, não me recordo
Ter sido antes sofrido de amor
Mas hoje, quando então acordo
Percebo essa mais nova dor
(Ah! Aurora...)
Que pena fim tão previsível!
Que doce amargo essa fome!
Despertara-me do insensível
Só no som de um simples nome!
(Ah! Aurora...)
Assim te fez-me ser e sofrer
Da falta que tua voz me faz
Deixara-me a desfalecer
Me trocara por outro rapaz
(Ah! Aurora...)
Enquanto a solidão cobria
A mulher que foi, por mim, amada
Tristes foram meus bons dias
Que não me cresceram em nada
(Ah! Aurora...)
Senti-me esvaindo em pena (De mim! Por mim!)
Temi me acabar sem nós
Enquanto a esperança amena
Mudou-se do meu ser atroz
(Ah! Aurora...)
Vazias foram tais semanas
Em que não causei-te dor alguma
Tive tantas Julias e Julianas
mas de Aurora eu só tive uma.
Despertou, em mim, essa criança?
Que atingiu a minha alma branda
Ou que fez-me derramar lembrança?
(Ah! Aurora...)
De doente, não me recordo
Ter sido antes sofrido de amor
Mas hoje, quando então acordo
Percebo essa mais nova dor
(Ah! Aurora...)
Que pena fim tão previsível!
Que doce amargo essa fome!
Despertara-me do insensível
Só no som de um simples nome!
(Ah! Aurora...)
Assim te fez-me ser e sofrer
Da falta que tua voz me faz
Deixara-me a desfalecer
Me trocara por outro rapaz
(Ah! Aurora...)
Enquanto a solidão cobria
A mulher que foi, por mim, amada
Tristes foram meus bons dias
Que não me cresceram em nada
(Ah! Aurora...)
Senti-me esvaindo em pena (De mim! Por mim!)
Temi me acabar sem nós
Enquanto a esperança amena
Mudou-se do meu ser atroz
(Ah! Aurora...)
Vazias foram tais semanas
Em que não causei-te dor alguma
Tive tantas Julias e Julianas
mas de Aurora eu só tive uma.
segunda-feira, 18 de maio de 2015
Conversas de Ônibus (II)
(Sento-me do lado dela)
- Olá.
- Oi.
- Oi.
- Que coincidência nos encontrarmos aqui, não?
- Não sei, eu te conheço?
- Não.
- Então por que seria uma coincidência?
- Todas as histórias são coincidências e improbabilidades.
- E o que é improvável?
- Não sei, eu te conheço?
- Não.
- Então por que seria uma coincidência?
- Todas as histórias são coincidências e improbabilidades.
- E o que é improvável?
- Que eu fale com uma mulher estranha no ônibus.
- E por que falou?
- E por que falou?
- Porque eu também sou estranho.
- Bastante.
- Bastante.
- Já que somos estranhos, posso tentar adivinhar seu nome?
- Pode.
- Pode.
- Tenho três chances, ok?
- Ok.
- Ok.
- Pâmela.
- Não.
- Não.
- Juliana.
- Também não.
- Também não.
- Priscila?
- Não. Perdeu.
- Não. Perdeu.
- Sua vez.
- Ah, eu não quero tentar adivinhar.
- Ah, eu não quero tentar adivinhar.
- Zeca.
- É o seu nome?
- É o seu nome?
- É.
- Priscila.
- Priscila.
- É o seu?
- É.
- É.
- Mas eu disse Priscila.
- Eu sei.
- Eu sei.
- Você é estranha.
- Hahahahaha eu!?
- Hahahahaha eu!?
- Eu e você, você e eu, nós.
- O que isso quer dizer?
- O que isso quer dizer?
- Nós?
- Tudo.
- Tudo.
- Que talvez nos conheçamos.
- Mas você disse que não nos conhecíamos.
- Mas você disse que não nos conhecíamos.
- Talvez nos conheçamos a partir de agora.
- Do nada?
- Do nada?
- É.
- E o que te faz pensar que eu quero conversar com você?
- E o que te faz pensar que eu quero conversar com você?
- O fato de já estar conversando.
- Mas eu poderia estar conversando qualquer um.
- Mas eu poderia estar conversando qualquer um.
- Você é qualquer uma, eu sou qualquer um.
- Isso foi rude.
- Isso foi rude.
- Me desculpe.
- ...
- ...
- Vai me ignorar pra sempre?
- Só até chegar o meu ponto.
- Só até chegar o meu ponto.
- Ou só até chegar o meu.
- Onde você desce?
- Onde você desce?
- Aqui. (Levanto-me)
- Aqui? Mas já?
- Aqui? Mas já?
- É. Nos vemos por aí?
- Vou pensar.
- Vou pensar.
- Me liga!
- Você não me deu seu número.
- Você não me deu seu número.
- Eu sei!
(Ando em direção à porta)
- Mas espera, não vai assim!
(Ando em direção à porta)
- Mas espera, não vai assim!
(Salto do ônibus)
- Até qualquer dia.
- Até qualquer dia.
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Vestido velho.
Hoje mais cedo te vi
Com aquele vestido velho
Com o mesmo sorriso sério
E esses cabelos de fogo
Com aquele vestido velho
Com o mesmo sorriso sério
E esses cabelos de fogo
Hoje eu passei e olhei
Aqueles tornozelos brancos
Trocando os meus passos mancos
Trôpego que estive ali
Aqueles tornozelos brancos
Trocando os meus passos mancos
Trôpego que estive ali
Bêbado que mal senti
A tua alegria em outro
Lembro-nos tanto pouco
Quando, ao te ver, nos vi.
Assinar:
Postagens (Atom)