domingo, 22 de setembro de 2013

Cegueira.

Estou nas mãos do destino, em um desejo irrefutável, imutável, irresponsável e inacreditável pela falta - da falta da falta - de vida. Suo a vontade de alegria, me recuso a inalar mais alguma coisa que não seja esse cigarro. Meu presente é de cinzas, meu passado de cetim e meu futuro é de ausência. Ausência do próprio futuro, talvez. (De mim?) Certo como a morte de agora, meus olhos não vêem mais a luz - ou a luz já não me vê. Minha alma é vazio infinito - se é que existe qualquer outro vazio - de um universo sem estrelas.
E o que sobra? O que existe, se não pode ser visto?
A escuridão.
A negrura da alma, do mundo.
Estou cego para o amor.
Estou morto.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

- P.

Ele colocou a primeira roupa e saiu de casa. Encontrar aquela mulher, gorda e ignóbil, era uma tarefa semanal entediante, mas necessária. Gostava de pensar nisso como cortar as unhas ou ir à igreja.
Seu incansável monólogo já estava atrapalhando os pensamentos de Paulo, que estavam na calcinha da garçonete, quando a comida chegou. Aproveitou o som do alimento sendo triturado na sua boca para ignorar o que estava sendo dito por aquela infeliz consequência de seu jantar, sentada à sua frente como um saco de estrume.
A menina pagou o jantar, de novo. Mesmo se tivesse dinheiro, Paulo não pagaria tanto por comer tão pouco nem em um milhão de anos. Era pra isso que ela servia afinal, não era? Paulo não tinha mais dinheiro. Ele havia torrado tudo com ressacas anteriores e, já que as bebidas também eram por conta dela, não gastava nenhum dinheiro para conseguir comê-la.
Sua vida não era mais do que comer e dormir. Não era o que ele havia imaginado, era melhor. A única parte que o divertia mais do que ver alguém se importando com ele era ver a cara de decepção que essas pessoas faziam quando percebiam que ele as abominava. Não era uma vida perfeita, mas chegava perto disso.
Paulo era feliz.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Futuro? (Ser eu.)

Acho que não tenho escapatória.
Físicos são prepotentes,
Escritores são depressivos,
Artistas são pobres,
Psicólogos são loucos,
Bons homens morrem cedo
E salafrários vão pra cadeia.
O que será de mim?

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A Pia.

Minha pia abre sozinha.
Não é uma coisa recente, nem nada que tenha acontecido de uma hora pra outra. Ela começou pingando um pouco, depois começou a abrir mais e hoje em dia ela molha a minha cozinha inteira.
Fui perguntar pra ela o que ela queria, mas ela sempre muda de assunto e nunca consigo focar nessa questão.
Já tentei de tudo, tudo mesmo, falei inclusive com meu médico. Ele me disse que estou maluco, mas tenho certeza de que a pia é esquizofrênica. O médico não entende por que eu acredito que a minha pia tem problemas mentais, e eu, além de não compreender por que ele duvida de mim, ainda não encontrei algum outro motivo que ela teria pra ela se abrir sozinha. A pia, por outro lado, diz que está tudo bem e que meu médico é quem está maluco, diz que eu sou completamente são.
Infelizmente, talvez ela seja esquizofrênica, então não posso dar muita atenção ao que ela diz.

Querida Moça Bonita...

Não sou quem almejou que eu fosse, mas sou completo e infinito, agora que não corta minhas asas de pecado. Sou aquilo que sempre fui, com um pouco mais de amargura que o mundo me causou.
Vim para dizer-lhe que, apesar de não possuir qualquer traço de nobreza em meus atos e costumes - e isso você observou bem - meu espírito ainda é mais nobre do que seu débil caráter mesquinho.
Não acredito agora que um nobre de alma possa julgar as sombras do outro; não. O mais nobre é aquele que enxerga a nobreza em todos, e foi justamente isso que deixara pra trás: a humildade.
Amo-lhe ainda, mas diferente de como amava. Não de uma maneira egoísta ou exacerbada; amo como a todos os outros, vivos, mortos ou inanimados. Amo por ser fragmento do universo tão significante quanto eu, pois aprendi a amar a vida.
Ainda assim, guardarei o segredo da minha verdadeira natureza; não quero que zombem da visão que tenho de mim mesmo exatamente como zombei da sua própria.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Bom dia.

Você acordou muito bem hoje. Na verdade, acordou tão bem que tudo ao seu redor parece estar conspirando a seu favor. Você quer rir, chorar e viver em um dia de pura e inegável felicidade.
Pra ser sincero, é ela a razão do seu refrão, do seu céu nublado de manhã. É ela quem faz tudo ficar mais tranquilo, como no primeiro dia de primavera, como uma boa chuva de verão.
É uma pena que, justamente nesses dias em que parece que nada de tão ruim pode acontecer e estragar o seu humor, algo de ruim acontece.
E estraga o seu humor.

Boa noite.

Boa noite mesmo.
Isso mesmo, boa noite.
Não está entendendo?
Pois vou repetir:
Boa. Noite.
É isso mesmo que o senhor ouviu.
Quer que eu soletre?
B-o-a espaço n-o-i-t-e
Ponto.
É. Ainda não entendeu?
Não estou com paciência para palavras de baixo calão.
Falo como Eu bem entender, e pode ir me dando licença.
Não ouviu?
Me dê licença, pois vou me retirar.
Me orgulho sim.
O senhor teve o que estava pedindo, avisei para não me provocar.
O que?
Ah é?
Nem precisa fazer essa cara.
Só tenho mais uma coisa a dizer:
Obrigado.