quinta-feira, 25 de junho de 2015

Silentium Sonare.

Aos poucos, tudo que eu conheço morre e tuas pupilas me afogam em escuridão. Enquanto suplico, teus cabeços negros me perdem em uma floresta de anseios e perfumes, tua nuca me animaliza e teu silêncio me despedaça. Enquanto choro, teus olhos me esquecem na compaixão do fogo, tua voz distante me despreza, mas não me mata - será assim o teu sentir de mim; em mim ou por mim? Seria eu, tonto e inútil, aquele por quem teu coração te bate sem folga? Aquele por quem tuas veias aquecerem o mármore que te cobre o peito? Estarei eu preso à ilusão da insegurança ou eximido do sofrimento da verdade? Que tal mármore aqueça-me os lábios, por delírio ou necessidade minha - temo definhar-me sem te pagar carícias - mas que deixe-me quente, tolo, fútil, bem! Deixa-me, em vida como em sonho, beijar-te os pés sem que me negues o resto de ti. Que não me negues sufocar o abraço do frio dentro dos cobertores inquietos, adentro à insensata noite, que me espante a tristeza e deixe-nos febris, cansados e descobertos, encobertos e redescobertos pela embriaguez desse novo amor.

domingo, 21 de junho de 2015

Como que pra sempre.

Seus olhos se fechavam como que pra sempre
Mas depois se abriam
E a tristeza declarava-se, gritava e chorava em cores
Mas depois os olhos se fechavam
Como que dormindo, como que em vazio
Como os meus, eles falavam
Mas não me viam, não escutavam
Talvez estivessem perdidos de tanto gritados
de tão chorados, eles fechavam
Como que acabados, como que sozinhos
Mas não se vá agora, amor, que eu não desisti
Abre esses olhos, que eu ainda não dormi
Abre essas portas fechadas, solta esses gritos contidos
Canta esses olhos calados
Que me fitavam, me amavam
Mas não amam mais
Mas não me fazem ser, não nos fizeram
Não nos fecharam antes de se acabarem
Antes de me acabarem como que pra sempre
Pra depois se abrirem
Pra depois se amarem
Pra depois fecharem.

Borboletas.

O dia começou anoitecendo em um quarto escuro. Minhas pálpebras queimavam de cansaço enquanto eu acendia outro cigarro ruim do Jack. A casa era dele, o cigarro era dele, o quarto era meu.
"Aquela borboleta está se mexendo?"
Jack não sabia o que falava, estava sob o efeito de drogas pesadas. Todos nós estávamos, de um jeito ou de outro. A borboleta à qual ele se referia era um enfeite grudado na parede que só se mexia em dias como aquele.
Olhei pra borboleta e ela olhou pra mim.
"O que você está olhando, verme estúpido?", eu disse.
Jack riu. Ri de volta, sem humor. Não havia um pingo de alegria em mim naquele dia-noite, foi por isso que eu resolvi me drogar. Algum sábio alguma vez me disse que a droga não vicia, que o hábito de se drogar é uma simples adaptação do ser humano à realidade em que ele se encontra, que eu posso parar na hora que eu quiser.
Mas eu não acredito nisso, eu não sou burro.
Virei-me para Jack, interrompento-lhe algum pensamento fútil.
"Ainda tem beck aí?"
"Tem."
"Aperta um então."
"Aperta você, vadia."
Jack riu de novo. Ele não era a criatura mais inteligente do mundo, talvez não fosse nem do quarto. Naquela época eu ainda tinha algum cérebro, alguma consciência, algum limite, ao contrário do Jack. Dizem que essas são as características da velhice e da experiência, mas eu acho que é o contrário: quanto mais velho, mais burro e acostumado você fica. Mais destemido, mais despreocupado, mais idiota. É aqui que a gente erra. Quando jovem, o mundo é um perigo atrás do outro, tudo é importante demais e tudo deve acontecer rápido demais, temos que prestar atenção em tudo. Eu cheguei a prestar, pelo menos por um tempo, mas aí o tempo vai passando e a gente deixa de ligar. Talvez meu futuro fosse diferente se eu tivesse pensado nisso antes, mas provavelmente não. Meu futuro não teria modos de ser diferente.
Jack já estava de pé quando eu terminei de apertar o baseado. Acendi, dei duas tragadas e segurei a fumaça no pulmão.
"Libera o beck aí, policial." - Jack se achava muito engraçado.
"Lei do duende: quem aperta, acende."
"Lei do gnomo: o segundo é o dono."
"Mas fui eu que comprei o boldo."
"Com o meu dinheiro."
"Foda-se, já to chapado mesmo."
Joguei o beck pro Jack, que o pegou desajeitadamente, queimando a palma da mão.
"Filho da puta!"
"Parece até que você sentiu queimar... Haha"
Meu coração acelerou, o mundo queimou e eu voltei a dormir.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Nostalgia.

Eu costumava dormir.
Escrevia até dormir e dormia -
Antigamente eu escrevia.
Nos tempos áureos, a cafeína,
A nicotina, o álcool e a cocaína
Não faziam parte do meu sangue -
Antigamente eu não bebia.
A solidão sentia e era sentida
E a tarde de domingo era sofrida
E a de segunda nunca terminava -
Antigamente eu não ligava.
E se chovia eu me molhava
E se nevava eu me cobria
E se eu chorava eu logo ria -
Nesses tempos eu ainda ria.
Agora é tudo lodo
E eu só vejo esse lixo todo
Cobrindo as ruas da minha mente,
E a verdade se tornou ausente
Como essa rima forçada,
Como uma relação arrastada.
Hoje meu coração punge,
Finge, mata, troca, pega,
Nega, peita, peida e fode -
Antigamente ele batia.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Ah, L'Amour...

Alguém alguma vez me disse que o melhor jeito de superar um grande amor é transformando-o em literatura. Assim, na esperança de não mais sentir, passei grande parte da minha vida escrevendo ao invés de viver. Levou tempo, mas hoje eu percebi meu erro: o amor é, dentre todas as outras coisas, literatura. Para escrever sobre ele, é preciso lembrar, e lembrar é como reler. Não é relendo que se esquece um bom livro, mas é relendo-o que se esquece dos outros  ― e foi relendo outras que esqueci você.

Cínico.

Esse frio me domina enquanto a esperança me condena, meus olhos riem e minha alma chora, tua falta despedaça e protege, teu perfume me traz um choro cínico e um sorriso nostálgico. Queria estar apagado, esquecido e irreversível. Queria não poder te olhar, te ouvir, te lembrar, te querer. Queria poder, fazer, perder. (Queria ser e somente ser).
Quero perder tudo que me faz querer.
(Quero querer perder-te.)

Retratos do delírio (I)

Imagine estar teto-pretando na casa de uma tia louca com 947 gatos: esse era eu naquele momento. Meus braços se moviam como cobras imaginárias do inconsciente coletivo de tudo que a cobra representa, meus olhos eram quadrados e tudo era azul. Deitei-me de bruços pelo que pensei estar em pé, esforcei-me para lembrar de alguma música conhecida e comecei: "essa moça tá difereeente, ja não me coonheeece MAIS" enquanto a tal tia louca continuava a conversar com os gatos. Senti que precisava fazer alguma coisa, então domei meus braços enquanto continuava a canção.
"Mas o tempo vai, mas o tempo vem..."
Consegui alcançar meu bolso e pegar, com o auxílio de unhas muito mal cortadas, mais uma das pílulas mágicas. Eu não queria fazer isso, mas era preciso. Senti-a tocar minha língua e descer minha garganta. Esperei enquanto cantava:
"Se do lado esquerdo do peito, no fuuundo ela ainda me quer bem..."
Em um sopro, senti-me bem de novo. O mundo era totalmente normal e chato, mas agora em câmera lenta. Eu sabia que eu não conseguiria fazer com que qualquer um me entendesse, então fiquei quieto enquanto a velha louca se aproximava:
"Pega esse aqui, meu filho, leva ele pra casa."
Eu só sorri por horas e esperei até que ela fosse embora. Em uma ocasião, eu estava contando essa história pra um amigo e ele duvidou que eu tivesse sorrido por tanto tempo, então precisei explicar que, para a velha e para todos os seus 947 gatos, passaram-se só alguns segundos.
Saí de lá enquanto a murcha gritava algo para mim, segurando um dos gatos como quem segura um pênis em uma orgia gay. Fiquei enjoado com a cena e perdi a fome. fui pro bar tomar uma cerveja e fumar um cigarro, mas não mais se fuma em bar então eu fiquei só com a cerveja. Malditos moralistas pútridos, com absurdos conceituais e lógicos de tamanha estupidez que perdem em argumento e sentido pra uma criança bem treinada. Vocês todos, na minha opinião, não passam de crianças mal treinadas esperando a vida inteira pelos próprios lugares ao Sol. Eu digo: "Que fiquem no sol, mas deixem-me fumar na sombra!"