segunda-feira, 30 de outubro de 2017
Tosco
Teimo em repetir palavras e erradicar acentos por descaso ou revolta com o padrão normativo do dizer. Teimo em repetir: não sois mais e nem quereis ser. Ser mais implica em fazer melhor sempre que puder e o vosso talento é a mediocridade. Melhor não, pensa o patético boneco ventríloquo. Farei o suficiente que puder e nada mais. Ocasionalmente menos, mas nunca mais. As ideias que te moldam não são de progresso, mas também não sucumbem ao mal. O que será que é o mal? Se aprendemos a matar, matamos. Se aprendemos a roubar, roubamos. Se não aprendemos a melhorar, caímos e continuamos fingindo estar de pé.
sábado, 15 de julho de 2017
Compostura.
Comecei a vida fazendo, mas meu sonho er'escrever. Arrisquei a sorte nos contos, errei e desisti. Comecei a escrever eventos, detalhes e acréscimos, entalhes de revista e lacunas de jornal, cansei. Cantei a nova bossa na manhã serena, aplaudiram e choraram sem querer, viram que eu podia oferecer alguma coisa nova além do MPB. Mas se eu falhar, o que há de vir a ser nessa pintura? Perco a pose e a compostura só de pensar, mas aí eu vou pedir. Vou chorar com meu pedir, mas vou pedir. Jamais vou desistir, mas e se for? É direito meu ser vendedor de flor numa cidade que proíbe poesia. É de encargo meu a nostalgia pr'essa burguesia triste e sem sal. E mesmo salgada a vida, engulo a verdade compriiida que me obriga a desandar. E pra ajudar a vencer a fadiga, eu compro bebida pra sala de estar. Agora eu vou poder cantar até o sol raiar, mas não mais que isso. Me enterro no colchão de pedra e torço pra não levantar. A exceção me dita a regra e logo eu volto pro lugar. Vou trabalhar, vou trabalhar, vou trabalhar.
quinta-feira, 13 de julho de 2017
Espelhos.
Tenho-me em muitos lapsos e em memórias de histórias que me contam sobre mim. Aliás, foi em uma dessas minhas desventuras que eu perdi meus sapatos, atordoado pela ketamina e ludibriado pelo não-contar das horas, por que não? Na época me recordo de estar fugindo da noção espacial e convencional do tempo — em segundos, minutos, dias, etc. — e recordo-me de ter conseguido chegar a me perder nos meses. Não era delirante, senão em seu âmbito acadêmico, uma pesquisa que visava justamente a desinformação. Raras foram as vezes em que voltei a passar tanto tempo sem olhar para manchetes de jornais e sem saber o que acontecia ao meu redor. Mas foi nessa época que eu percebi que não fazia a menor diferença. Fora os entorpecimentos usuais, passava bastante tempo em casa, à deriva social. Levei a sério o experimento. Pedi para os meus companheiros de bar que me contassem apenas o que fosse estritamente necessário para a minha vivência, salvo calamidades públicas de ordem superior. Meu cotidiano não mudou e eu não me senti mais deslocado do que nos lugares aos quais eu me realoco. O tempo livre, por ouro lado, esticou-se. Sem que eu precisasse desgastar-me aprendendo sobre um universo que, com ou sem mim, permanecia em processo lento — imperceptível, eu diria — de transformação, minha barba crescia e apara-la tornou-se um hábito agradável. Eu pude dar atenção total a mim, à minha aparência e ao meu psicológico agora que o tempo não me convinha. Fui ficando mais bonito, acredito eu, mas pode ser ilusão da minha cabeça. No geral, comi melhor, me exercitei mais e me entorpeci menos. Ainda assim, mais do que o suficiente.
Quando voltei ao presente, haviam passado-se cinco meses e meio. Nada mau. Alguns relacionamentos próximos haviam sido deixados pra lá, outros nem mesmo me vieram à memória senão muito depois da minha recobrada de medida. Percebi que, bem ou mal, estamos mais sozinhos do que pensamos e apenas fazemos o suficiente para fugir dessa realidade pouco tragável. Não estamos assim por obrigação, por assim dizer: gostamos de estar. Duvida? Pois lhe dou o exemplo dos ônibus, onde sentamos cuidadosamente distantes um do outro para evitar um contato maior com alguém "que, até onde sei, pode ser um maníaco ou coisa pior". A verdade é que precisamos de espaço. Preservamos lugares relativamente arejados, embora passemos a maior parte da vida em cubículos. Mas gostamos dos cubículos também, talvez justamente por essa mesma causa.
É engraçado o que se percebe quando se olha pro lado contrário ao da percepção: não existe lado contrário. Em todo lugar, a todo momento, existe algo novo a ser descoberto ou transformado. Hoje escrevo sob um diferente ângulo à respeito da imortalidade: a considero sábia, porém perigosa. Ontem era só perigosa e amanhã poderá ser alguma coisa a mais. Ou a menos, por que não? Para todos os efeitos, porém, é preciso fazer duas considerações. A primeira é um tanto óbvia, mas ainda de suma importância: o homem faz o relógio, não o contrário. A última, que a realidade é uma amiga da qual nenhum de nós deve perder total contato por muito tempo.
Duvida?
Quando voltei ao presente, haviam passado-se cinco meses e meio. Nada mau. Alguns relacionamentos próximos haviam sido deixados pra lá, outros nem mesmo me vieram à memória senão muito depois da minha recobrada de medida. Percebi que, bem ou mal, estamos mais sozinhos do que pensamos e apenas fazemos o suficiente para fugir dessa realidade pouco tragável. Não estamos assim por obrigação, por assim dizer: gostamos de estar. Duvida? Pois lhe dou o exemplo dos ônibus, onde sentamos cuidadosamente distantes um do outro para evitar um contato maior com alguém "que, até onde sei, pode ser um maníaco ou coisa pior". A verdade é que precisamos de espaço. Preservamos lugares relativamente arejados, embora passemos a maior parte da vida em cubículos. Mas gostamos dos cubículos também, talvez justamente por essa mesma causa.
É engraçado o que se percebe quando se olha pro lado contrário ao da percepção: não existe lado contrário. Em todo lugar, a todo momento, existe algo novo a ser descoberto ou transformado. Hoje escrevo sob um diferente ângulo à respeito da imortalidade: a considero sábia, porém perigosa. Ontem era só perigosa e amanhã poderá ser alguma coisa a mais. Ou a menos, por que não? Para todos os efeitos, porém, é preciso fazer duas considerações. A primeira é um tanto óbvia, mas ainda de suma importância: o homem faz o relógio, não o contrário. A última, que a realidade é uma amiga da qual nenhum de nós deve perder total contato por muito tempo.
Duvida?
Roma.
Como encontrar resposta para o sentimento? Quando vem, chega rasgando por dentro, incontrolável e imprevisível: como uma rachadura no gélido raciocínio. Amar e sofrer partem do mesmo princípio: metamorfosear. São opostos da mesma prima causa, eu suponho. Apenas posso supor, nada me é tangível desse ângulo. Sinto frio, mas não vem da pele. Sinto solidão mesmo próximo aos meus mais queridos entes e sinto fadiga em plena saúde física. E irônico que, depois de todas as conclusões e teorias, minhas palavras extinguam-se por um instinto que me é além-lógico, resumidas sempre em quatro inexoráveis letras. Pergunto-me, no auge do meu delírio, se esse borbulhar me torna mais ou menos animalesco. Afinal de contas, não sei o rumo da evolução humana. Por maior que seja a minha capacidade de pensamento, meu ínfimo conhecimento à respeito do que antecede a minha existência nunca me será suficiente sem um relance do que seria a eternidade. Sendo assim, é impossível determinar se estou dando um passo pra frente ou dois pra trás — segundo minha definição de impossibilidade.
Do jeito que vejo lá fora, não sobreviveremos por muito tempo. É uma pena, entretanto, que todas as minhas considerações até hoje tenham sido vazias ante à complexidade do amor. Sem ele, temo que, ao final de meus humildes dias, terei sido resumido a alguns gigabytes de memória num imenso oceano de palavras esquecidas. Minha real essência será sucumbida à incompreensão e nem mesmo terei tido o luxo de saber se minha inconsistência possui, de fato, alguma consistência em inconsistir. Isso se, claro, considerarmos que existe qualquer diferença que seja entre os loucos e os incompreendidos.
Por essa razão talvez que, a meu ver, o inentendimento me é mais desesperador que o oblivion. Afinal, lembrar-me futuramente não me deixará menos morto — futuramente. É irresponsabilidade ignorar que de nada vos será útil a lembrança da minha carne, salvo por uma possível proeminência desse meu já protuberante ego — que se esvairá antes mesmo dos meus órgãos e tecidos. Em suma, quem eu sou nem mesmo representa o que eu escrevo, uma vez que minha mente é apenas um tradutor das circunstâncias às quais eu fui submetido até aqui.
A ideia que é propagada, por outro lado, independe do seu primigesto uma vez que é absorvida parcial ou integralmente por seus futuros hospedeiros. Isso significa dizer que, uma vez que eu fosse decifrado, a vida do meu raciocínio não mais estaria atrelada à minha própria e se elevaria à condição de imortalidade momentânea. Mas nada disso acontecerá — ou não terá valor senão semântico — se não for considerado o sentir na minha pele ante o quadro de palavras. De nada terá valido a pena o meu doer.
Essas, claro, são apenas considerações. Ninguém é capaz de prever o futuro e, caso possível fosse, duvido que seria eu — visto o meu total desjeito com o presente atual. Sorrio enquanto me enredo nesse labirinto lógico. Delírio é uma boa palavra ante à inconstância tamborilante no meu peito. Bem-me-quer, mal-me-quero?
Do jeito que vejo lá fora, não sobreviveremos por muito tempo. É uma pena, entretanto, que todas as minhas considerações até hoje tenham sido vazias ante à complexidade do amor. Sem ele, temo que, ao final de meus humildes dias, terei sido resumido a alguns gigabytes de memória num imenso oceano de palavras esquecidas. Minha real essência será sucumbida à incompreensão e nem mesmo terei tido o luxo de saber se minha inconsistência possui, de fato, alguma consistência em inconsistir. Isso se, claro, considerarmos que existe qualquer diferença que seja entre os loucos e os incompreendidos.
Por essa razão talvez que, a meu ver, o inentendimento me é mais desesperador que o oblivion. Afinal, lembrar-me futuramente não me deixará menos morto — futuramente. É irresponsabilidade ignorar que de nada vos será útil a lembrança da minha carne, salvo por uma possível proeminência desse meu já protuberante ego — que se esvairá antes mesmo dos meus órgãos e tecidos. Em suma, quem eu sou nem mesmo representa o que eu escrevo, uma vez que minha mente é apenas um tradutor das circunstâncias às quais eu fui submetido até aqui.
A ideia que é propagada, por outro lado, independe do seu primigesto uma vez que é absorvida parcial ou integralmente por seus futuros hospedeiros. Isso significa dizer que, uma vez que eu fosse decifrado, a vida do meu raciocínio não mais estaria atrelada à minha própria e se elevaria à condição de imortalidade momentânea. Mas nada disso acontecerá — ou não terá valor senão semântico — se não for considerado o sentir na minha pele ante o quadro de palavras. De nada terá valido a pena o meu doer.
Essas, claro, são apenas considerações. Ninguém é capaz de prever o futuro e, caso possível fosse, duvido que seria eu — visto o meu total desjeito com o presente atual. Sorrio enquanto me enredo nesse labirinto lógico. Delírio é uma boa palavra ante à inconstância tamborilante no meu peito. Bem-me-quer, mal-me-quero?
quarta-feira, 21 de junho de 2017
O Rei. (parte 1)
Eu estou tentando dormir, mas não consigo tirar essa ideia da minha cabeça. Não foi por isso que eu comecei a escrever afinal de contas? Enquanto o resto dorme, cá estamos nós. Eu e você, você e eu - ligados por uma teia invisível de probabilidades que nos levaram a esses dois momentos específicos. O primeiro, sobre o qual escrevo minhas palavras, eu imortalizo para que cheguemos enfim ao teu: a leitura da obra final. Mas não vá se entusiasmando, anônimo leitor, pois esta história não tem final. Até onde eu vejo, inclusive, mal possui início e, dificilmente, dada a conjectura atual, será capaz de possuir um clímax. Ou será que este já chegou? Nesse caso, a história antecipou-se à pena.
Explico-lhe:
Existe, é claro, o momento da escrita, mas também há aqueles anteriores ao ato: uma inquietação, uma lágrima, uma ideia. Existe razão por cada palavra e por cada ato humano, caro leitor, e só neles tal razão é cabível de existir. Dadas minhas palavras, pode-se eliminar, desde já, a possibilidade de uma consciência maior controlando minha voz, pois Esta não está aqui. Lhe digo mais: em toda a minha existência, jamais pude ve-la manifestando-se de qualquer forma que fosse, salvo pelo único momento em que eu próprio me senti divino. Não é proibido se sentir divino, sabia? Nem mesmo prejudicial, acho eu. Acredito que podemos ter pequenos acessos de loucura se forem controlados. Já o descontrole, porém, é o maior perigo do homem. Não a ganância, a guerra ou a malevolência - a existência desta última ainda não está comprovada do meu ponto de vista - mas o descompasso e o exagero. Querer sempre foi demasiadamente humano, por que não? Segundo a filosofia budista, querer é apenas uma sensação carnal, pois o espírito em si não deseja. Eu discordo. Desejar é também amar, também sentir e também sofrer. Se não há querer, nada existe por nenhum porquê existir. Obviamente a ausência de vontade nos tornaria menos impulsivos e inconsequentes, mas também faria-nos apáticos. Querer é, portanto, natural e produtivo: contanto que um não queira demais.
Bom, tendo esclarecido isso, eu deveria começar a escrever. Ainda assim, temo que poucos de vocês me entenderão e, aos poucos que puderem talvez me compreender, peço perdão pela incoerência: por vezes utilizarei-me da parcialidade que me cabe como testemunha, mesmo sabendo que tal inadequação como narrador poderia dificultar a visão do leitor sobre os fatos - afinal, já vimos isso acontecer em Dom Casmurro - mas quais são eles?
Quais são os fatos?
Veja bem, esta tem sido a minha dificuldade em contar uma história. Se digo-lhes meu ponto de vista, tendo à parcialidade, mas se procuro relatar de forma imparcial, mais parcial eu posso ser sem nem mesmo perceber. Pense comigo: colocar-se como onisciente é o primeiro da lista de grandes erros cometidos por grandes homens e eu aparentemente sou um desses homens. Afinal, nenhum ser humano em sã consciência se disporia a ler-me até esse ponto se considerasse minha escrita medíocre. Você deve estar bem atento agora e dizer-se "este homem está confundindo-se com seu eu lírico, ele está louco!". Acontece, caro leitor, que um homem é feito pelas suas ações e não pelos seus pensamentos. Tudo que você pensa e não faz morre com seu corpo. Mas nem tudo que você faz sem pensar terá o mesmo destino. Compreende? Dessa forma, minha grandiosidade na escrita é também minha grandiosidade pessoal, embora meu total conteúdo não se resuma a ela. Esses mesmos grandes homens que mencionamos não foram lembrados pelos seus pensamentos, intenções e angústias. Foram lembrados por seus ATOS, querido espectador.
Por outro lado, são esses mesmos atos que os destroem.
Claro que, para uma mente menos atenta do que a dos meus leitores habituais, muita coisa pode não fazer sentido. Afinal, nem todos possuem tempo de sobra para questionar a temporalidade da ética e a inexorabilidade da natureza humana, nem todos vêem além do bem e do mal. Estudiosos costumam dizer que a história se repete, mas por vezes falham em entender os porquês das próprias frases. Desse jeito, como podem ser chamados de estudiosos pra começo de conversa? Eu não sei, mas chamam-se uns aos outros assim e eu apenas uso por falta de palavra mais simples que os descreva em toda sua ignorância e falsa superioridade. Os dizeres populares ficam gravados como verdades palpáveis em seus cérebros e daí surgem colunas e castelos de ideias, que formam-se a partir de uma simples dúvida que foi posta junto às certezas. É como o câncer. Qualquer aluno de segundo grau deve saber do que eu estou falando, não é mesmo? Vocês todos estudam tão bem a reprodução das células, com todas aquelas palavras que somem da cabeça depois de um ou dois anos, que não teriam como não saber. Se você ainda está nessa fase da vida, peço que não se culpe, nosso sistema de ensino é patético. Somos moldados em verdades absolutas quando o mundo inteiro é, na verdade, apenas o nosso ponto de vista construído sobre esse mundo, com diversas dúvidas sendo falsamente solucionadas e colocadas na pilha de certezas até que não restem mais dúvidas e toda aquela juventude tenha se transformado em ego e câncer. Se não se vê a diferença entre um estudante de doutorado e uma pré-adolescente se deparando com as primeiras noções de lógica, em que mundo vocês estão? Quando foi que todos vocês se esqueceram de que são crianças? Que sociedade estúpida!
Aqui estou eu, com tanto a aprender e cercado de prisioneiros. Onde foram parar os espíritos livres que já deveriam ter acompanhado o processo? O que se fez dos reais pensadores atuais, que nasceriam para suceder as gerações passadas?
Chega. Novamente, todo esse parágrafo vira apenas uma demonstração de ego, uma igualdade de raciocínio pífio. Vê? Nem mesmo eu, com todas as minhas convicções lógicas, consigo escapar da certeza. Esta não deve pensar em existir ou você começará a pensar que pode opinar qualquer coisa sobre mim quando você está aqui para ler.
Perdoe-me pela interrupção, meus dedos não conseguem acompanhar meu cérebro. O fato é que, de fato, nada posso afirmar senão o que vi e vivi. Foram contadas mentiras sobre mim, mas como dizer se a mentira pra mim não é, pros que a disseram, a mais absoluta verdade? Mas aí eu não estarei contando a história do início como eu prometi que faria. Acontece, caro leitor e amigo, que nem mesmo eu sei quem deu início aos boatos. Uma pitada de medo e incompreensão implementada com o veneno das más bocas e eu já era o vilão. Aos treze, aos dezoito ou aos vinte e cinco, nunca fez nenhuma diferença. É vontade encontrar um culpado, embora digam-se tão pensantes. Queria poder chacoalhar cada um de nós e dizer que errar com quem erra é também errar - se me permite o termo. Queria poder contar minha história sem denunciar meu carrasco ou denuncia-lo tendo certeza de que não estaria me tornando como ele ao executar sua sentença.
Mas eu vou contar minha história, caro leitor.
Espere pra ver.
Explico-lhe:
Existe, é claro, o momento da escrita, mas também há aqueles anteriores ao ato: uma inquietação, uma lágrima, uma ideia. Existe razão por cada palavra e por cada ato humano, caro leitor, e só neles tal razão é cabível de existir. Dadas minhas palavras, pode-se eliminar, desde já, a possibilidade de uma consciência maior controlando minha voz, pois Esta não está aqui. Lhe digo mais: em toda a minha existência, jamais pude ve-la manifestando-se de qualquer forma que fosse, salvo pelo único momento em que eu próprio me senti divino. Não é proibido se sentir divino, sabia? Nem mesmo prejudicial, acho eu. Acredito que podemos ter pequenos acessos de loucura se forem controlados. Já o descontrole, porém, é o maior perigo do homem. Não a ganância, a guerra ou a malevolência - a existência desta última ainda não está comprovada do meu ponto de vista - mas o descompasso e o exagero. Querer sempre foi demasiadamente humano, por que não? Segundo a filosofia budista, querer é apenas uma sensação carnal, pois o espírito em si não deseja. Eu discordo. Desejar é também amar, também sentir e também sofrer. Se não há querer, nada existe por nenhum porquê existir. Obviamente a ausência de vontade nos tornaria menos impulsivos e inconsequentes, mas também faria-nos apáticos. Querer é, portanto, natural e produtivo: contanto que um não queira demais.
Bom, tendo esclarecido isso, eu deveria começar a escrever. Ainda assim, temo que poucos de vocês me entenderão e, aos poucos que puderem talvez me compreender, peço perdão pela incoerência: por vezes utilizarei-me da parcialidade que me cabe como testemunha, mesmo sabendo que tal inadequação como narrador poderia dificultar a visão do leitor sobre os fatos - afinal, já vimos isso acontecer em Dom Casmurro - mas quais são eles?
Quais são os fatos?
Veja bem, esta tem sido a minha dificuldade em contar uma história. Se digo-lhes meu ponto de vista, tendo à parcialidade, mas se procuro relatar de forma imparcial, mais parcial eu posso ser sem nem mesmo perceber. Pense comigo: colocar-se como onisciente é o primeiro da lista de grandes erros cometidos por grandes homens e eu aparentemente sou um desses homens. Afinal, nenhum ser humano em sã consciência se disporia a ler-me até esse ponto se considerasse minha escrita medíocre. Você deve estar bem atento agora e dizer-se "este homem está confundindo-se com seu eu lírico, ele está louco!". Acontece, caro leitor, que um homem é feito pelas suas ações e não pelos seus pensamentos. Tudo que você pensa e não faz morre com seu corpo. Mas nem tudo que você faz sem pensar terá o mesmo destino. Compreende? Dessa forma, minha grandiosidade na escrita é também minha grandiosidade pessoal, embora meu total conteúdo não se resuma a ela. Esses mesmos grandes homens que mencionamos não foram lembrados pelos seus pensamentos, intenções e angústias. Foram lembrados por seus ATOS, querido espectador.
Por outro lado, são esses mesmos atos que os destroem.
Claro que, para uma mente menos atenta do que a dos meus leitores habituais, muita coisa pode não fazer sentido. Afinal, nem todos possuem tempo de sobra para questionar a temporalidade da ética e a inexorabilidade da natureza humana, nem todos vêem além do bem e do mal. Estudiosos costumam dizer que a história se repete, mas por vezes falham em entender os porquês das próprias frases. Desse jeito, como podem ser chamados de estudiosos pra começo de conversa? Eu não sei, mas chamam-se uns aos outros assim e eu apenas uso por falta de palavra mais simples que os descreva em toda sua ignorância e falsa superioridade. Os dizeres populares ficam gravados como verdades palpáveis em seus cérebros e daí surgem colunas e castelos de ideias, que formam-se a partir de uma simples dúvida que foi posta junto às certezas. É como o câncer. Qualquer aluno de segundo grau deve saber do que eu estou falando, não é mesmo? Vocês todos estudam tão bem a reprodução das células, com todas aquelas palavras que somem da cabeça depois de um ou dois anos, que não teriam como não saber. Se você ainda está nessa fase da vida, peço que não se culpe, nosso sistema de ensino é patético. Somos moldados em verdades absolutas quando o mundo inteiro é, na verdade, apenas o nosso ponto de vista construído sobre esse mundo, com diversas dúvidas sendo falsamente solucionadas e colocadas na pilha de certezas até que não restem mais dúvidas e toda aquela juventude tenha se transformado em ego e câncer. Se não se vê a diferença entre um estudante de doutorado e uma pré-adolescente se deparando com as primeiras noções de lógica, em que mundo vocês estão? Quando foi que todos vocês se esqueceram de que são crianças? Que sociedade estúpida!
Aqui estou eu, com tanto a aprender e cercado de prisioneiros. Onde foram parar os espíritos livres que já deveriam ter acompanhado o processo? O que se fez dos reais pensadores atuais, que nasceriam para suceder as gerações passadas?
Chega. Novamente, todo esse parágrafo vira apenas uma demonstração de ego, uma igualdade de raciocínio pífio. Vê? Nem mesmo eu, com todas as minhas convicções lógicas, consigo escapar da certeza. Esta não deve pensar em existir ou você começará a pensar que pode opinar qualquer coisa sobre mim quando você está aqui para ler.
Perdoe-me pela interrupção, meus dedos não conseguem acompanhar meu cérebro. O fato é que, de fato, nada posso afirmar senão o que vi e vivi. Foram contadas mentiras sobre mim, mas como dizer se a mentira pra mim não é, pros que a disseram, a mais absoluta verdade? Mas aí eu não estarei contando a história do início como eu prometi que faria. Acontece, caro leitor e amigo, que nem mesmo eu sei quem deu início aos boatos. Uma pitada de medo e incompreensão implementada com o veneno das más bocas e eu já era o vilão. Aos treze, aos dezoito ou aos vinte e cinco, nunca fez nenhuma diferença. É vontade encontrar um culpado, embora digam-se tão pensantes. Queria poder chacoalhar cada um de nós e dizer que errar com quem erra é também errar - se me permite o termo. Queria poder contar minha história sem denunciar meu carrasco ou denuncia-lo tendo certeza de que não estaria me tornando como ele ao executar sua sentença.
Mas eu vou contar minha história, caro leitor.
Espere pra ver.
quinta-feira, 15 de junho de 2017
Marie.
Gosto de ver o vento e sentir o ar nas minhas bochechas. Gélidos ares fazem meu rosto esquentar e corar pois estou fugindo das gélidas luzes de ensino. Gosto de sentir a grama nos meus pés descalços e de me deitar pra observar o céu azul não artificial. Quando eu era criança, minha mãe me proibiu de deitar na grama porque grudava toda na minha saia plissada azul.
Sinto falta da minha saia plissada azul.
Eu não ligo muito, pois não estou em nenhum quarto fechado. Não preciso saber se eu sou bonita porque não tenho espelhos e nem saberia o que fazer se eu por acasso encontrasse algum. Às vezes sinto falta de uma pessoa que eu encontrei em uma caixa, mas ela não queria sair da caixa.
"Por que você não sai da caixa?", eu perguntei.
Pessoas não apreciam coisas simples. Semana passada eu peguei carrapato em uma parte secreta do meu corpo porque nadei nua no lago que tem aqui perto. Acho que o Julio, filho pequeno do vizinho, estava me olhando no arbusto. Não liguei. Situações diferentes acontecem quando menos se espera e eu nunca estou esperando nada.
Esses dias eu sonhei com uma pessoa só e foi maravilhoso.
Tudo está bem aqui. Ainda não encontrei uma forma de escrever o que estou pensando, mas um dia o farei. Tem a ver com flores.
Sinto falta da minha saia plissada azul.
Eu não ligo muito, pois não estou em nenhum quarto fechado. Não preciso saber se eu sou bonita porque não tenho espelhos e nem saberia o que fazer se eu por acasso encontrasse algum. Às vezes sinto falta de uma pessoa que eu encontrei em uma caixa, mas ela não queria sair da caixa.
"Por que você não sai da caixa?", eu perguntei.
Pessoas não apreciam coisas simples. Semana passada eu peguei carrapato em uma parte secreta do meu corpo porque nadei nua no lago que tem aqui perto. Acho que o Julio, filho pequeno do vizinho, estava me olhando no arbusto. Não liguei. Situações diferentes acontecem quando menos se espera e eu nunca estou esperando nada.
Esses dias eu sonhei com uma pessoa só e foi maravilhoso.
Tudo está bem aqui. Ainda não encontrei uma forma de escrever o que estou pensando, mas um dia o farei. Tem a ver com flores.
Uníssono.
Não escrever é muito mais do que não querer escrever. Eu gostaria de estar criando, mas não possuo capacidade para tal; seja por entorpecimento ou frustração, meu corpo não obedece minha imposição e despedaça como Troia. Sou invadido por um calor que preenche meu corpo em um suspiro, mas não tem pra onde explodir e morre ali. A criatividade apodrece dentro de mim e tudo que eu posso fazer é observar por um aquário. É engraçado, é como se as portas que eu antes dominava ao expressar-me tivessem sido agora tomadas pelo medo do julgamento. Me vejo como homem que virou besouro, como um eletrodoméstico obsoleto que foi deixado, sem maiores motivos, no meio da sala - sem nunca efetivamente ser jogado fora. Minhas paixões da carne conflituam com meus mais profundos e puros desejos, mas me acalmam diante à frustração. Não me curvo à ideia de que o sucesso seja causado por persistência e não pela capacidade, mas não sei de nada e agora já estou velho, essa é a verdade. Aos poucos eu me torno medíocre na carne e na literatura. Na escrita, as várias vozes que aqui falavam calam-se. Quando voltam, chegam devagar e logo vão embora. O pouco do dizer que fica teima a dizer, em uníssono: "eu não sou mais suficiente... me perdoem."
Mas sou incapaz de perdoar.
Mas sou incapaz de perdoar.
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