Pela janela da casa, se sentia o cheiro de comida fresca do vizinho se misturar com o sabor da chuva. Dentro da casa, porém, não era ritmo de ano novo. O samba não floria, e a chuva não afetava nada. Estava vazia, triste, desligada. O gás devidamente fechado e as luzes definitivamente apagadas antes de partir pra viagem. De companhia, algumas lembranças, dores, energias. É só aquela velha casa surrada que suportou todos os anos quieta. Todas as brigas, todas as chuvas, todos os dias de sol.
Será que há alguém mais solitário do que a casa afinal?
domingo, 23 de março de 2014
Piedade.
Eu não sei
entregar-me
para o bem,
e levei-me
a alguém
que já fez,
de mim, refém.
O que sou
que não te digo?
O que vou
fazer contigo?
O veneno
que me habita,
tão ameno
que limita
a verdade
enquanto grito
"liberdade!"
Não imponha
tua vontade
com o mito
de amar,
Não irei mais
fraquejar.
Meu problema
diz respeito
às tuas garras
que começam
algazarras
no meu peito.
Quem te deu
esse direito
De invadir
sabor alheio?
De acabar com
meu anseio
de esquecer?
Morrerei
com a barba
por fazer?
Sufocar
afogado
na vontade?
Eu imploro
tão sonoro
"Piedade!"
entregar-me
para o bem,
e levei-me
a alguém
que já fez,
de mim, refém.
O que sou
que não te digo?
O que vou
fazer contigo?
O veneno
que me habita,
tão ameno
que limita
a verdade
enquanto grito
"liberdade!"
Não imponha
tua vontade
com o mito
de amar,
Não irei mais
fraquejar.
Meu problema
diz respeito
às tuas garras
que começam
algazarras
no meu peito.
Quem te deu
esse direito
De invadir
sabor alheio?
De acabar com
meu anseio
de esquecer?
Morrerei
com a barba
por fazer?
Sufocar
afogado
na vontade?
Eu imploro
tão sonoro
"Piedade!"
terça-feira, 18 de março de 2014
Loreley.
Tu'alma se eleva,
Mas leva sem dó
Tão só maresia
Sonho parecia
Final de romance
Verdammt nuance!
Dos rios, bebi
Teu doce sofri
Levaste o sabor
Sorria, amor!
Que o céu te aguarda
E guarda no mar
A dor de estar
Sem mais uma amiga
Que afunda perdida
Ah, querida...
Pudesse saber
Tua cor preferida
Pintar tuas águas
Sarar tua ferida.
Não falta amar
Me falta o ar
Pra continuar
Rimando.
Mas leva sem dó
Tão só maresia
Sonho parecia
Final de romance
Verdammt nuance!
Dos rios, bebi
Teu doce sofri
Levaste o sabor
Sorria, amor!
Que o céu te aguarda
E guarda no mar
A dor de estar
Sem mais uma amiga
Que afunda perdida
Ah, querida...
Pudesse saber
Tua cor preferida
Pintar tuas águas
Sarar tua ferida.
Não falta amar
Me falta o ar
Pra continuar
Rimando.
terça-feira, 11 de março de 2014
O único porquê.
Passei a mão em seus cabelos e senti a suavidade de sua essência. Em seus olhos, vi a solidão na inocência, o vazio na calma, o abandono na ignorância. Tal ser, tão frágil e belo, se destruirá aos poucos pelas dores do mundo. Seus lábios perderão o gosto, sua pele deixará a cor, sua alma enferrujará a melodia dos mil anjos que a compuseram. Os doces serão trocados por cigarros, a água pelo vinho, a brincadeira pela luxúria. Pouco a pouco, até a mais bela criatura deixará de existir para dar lugar à mais esdrúxula aberração de Deus. O único impedimento - e também meu único porquê - é a morte.
No fim, todos nós morreremos, querida.
Por que não agora?
No fim, todos nós morreremos, querida.
Por que não agora?
Danação.
Amaldiçoados sejam os mosquitos, que perturbam a soberania do ser, do pensar e do agir. Sofredores sejam os pássaros, que traem o silêncio do fim da tarde. Que seja banida a Lua, que caçoa da escuridão e zomba das águas do mar. Sejam os cupins extintos, por apodrecerem lares para construir o próprio. Malditos sejam os porcos, cães, aves, anfíbios, e condenado seja esse mundo de sofrimento, podridão e ódio, por tudo que já me causou.
quinta-feira, 6 de março de 2014
Tudo mesmo.
Abençoo cada suspiro,
Cada grito, dor, lágrima
Cada segundo, minuto
Hora, dia, mês e ano
Que se passou
Dentro de mim.
Derramaria cada gota
De cada taça
De cada vinho
Que já bebemos
Mais uma vez
Na garganta.
Não chora, não vai
Aliás, vai sim
Não fica aqui
Do meu lado
Nem ali perto
Fica longe
N'outro lugar
Outra rua
Cidade, estado
Outro país
Outro planeta
Universo
Vai embora
Pr'eu não ver
Que perdi tudo
Mas tudo mesmo
Que já tive.
Cada grito, dor, lágrima
Cada segundo, minuto
Hora, dia, mês e ano
Que se passou
Dentro de mim.
Derramaria cada gota
De cada taça
De cada vinho
Que já bebemos
Mais uma vez
Na garganta.
Não chora, não vai
Aliás, vai sim
Não fica aqui
Do meu lado
Nem ali perto
Fica longe
N'outro lugar
Outra rua
Cidade, estado
Outro país
Outro planeta
Universo
Vai embora
Pr'eu não ver
Que perdi tudo
Mas tudo mesmo
Que já tive.
Amada...
Ah, minha querida! Meu pedaço de torta alemã, meu desastre pessoal... Tu que me adoeceu, me deixou nessa cama fria de hospital, mas não faz mal. Eu te amo, querida. Todos esses anos te amando, e só percebo agora! Acho que foi depois daquela noite juntos, quando tomamos aqueles copos de vinho e fomos dormir nus. Eu queria ter sabido antes, ou nunca ter descoberto, porque agora é tarde... Essa não é declaração de amor, querida, é confissão. Confesso Ananda, Lígia, Caroline e Aurora. Confesso cada pecado que pratiquei pelas suas costas, porque agora a história é outra. Uma dessas me deu um filho, meu amor. Pensa só, eu como pai! E tu duvidando da minha virilidade, falando que eu sou viado, mas não faz mal, porque a criança já está chegando. E é menino! Eu pensei muito antes de escrever, de te contar tudo. Quando eu soube, quis chutar a barriga da vadia com a criança dentro, mas quando eu vi os dois meu coração amoleceu. Eu não vou te dizer quem é, com medo que tu mates ela antes da criança nascer, mas ela não é tão bonita assim. Tu, meu amor, foi a mulher mais bonita com quem eu já estive, e só trepei com outras por isso. Teu rosto angelical me deixa inseguro, e estar só contigo estava me deixando louco. Eu sei que poderia ter mudado pra sua casa, mas a desconfiança só ficaria pior. Eu sou infantil, tolo, fútil, nada como tu, nada como o filho que me aguarda. Eu espero ter teu perdão, pois estou saindo da cidade. Na verdade, estou saindo do estado, e só volto quando meu filho crescer. Não sou homem o suficiente para dizer na cara, talvez por medo que tu me mates também. Mas espero ser homem para meu filho e para minha nova mulher. Te perdoo por todas as brigas, e peço desculpas pelas cicatrizes que deixei na tua alma - como as que deixou no meu corpo. Desejo tudo de bom para ti e para a tua vida.
Adeus.
Adeus.
Assinar:
Postagens (Atom)