-Oi.
-Oi.
-Tudo bem?
-Sim, você? Você sumiu esses dias...
-Não estou bem.
-Ahn... Por que não ta bem?
-É bem previsível isso tudo, sabia?
-Ahn?
-Eu falo oi e você fala oi, eu pergunto se tudo está bem e tudo está sempre bem. Se você disser que não e que está tudo uma merda, eu não vou me importar, mas vou preferir que esteja tudo certo pra não precisar me dar ao trabalho de perguntar.
-Eu não sei o que esperar agora.
-Todo mundo faz a mesma coisa estúpida todos os dias, estou cansado disso!
-Você é uma bomba-relógio, não sei por que ainda me surpreendo.
-Todos são bombas-relógio, querida, mas alguns não funcionam muito bem.
-E você está em perfeito estado.
-Mas eu estou cansado de ser estúpido, sinto como se eu estivesse fugindo dos meus problemas porque é exatamente o que eu estou fazendo.
-Estúpido você não é, disso eu tenho certeza. Absolutamente babaca, mas estúpido não.
-Então talvez você também seja estúpida, porque eu sou bem estúpido. Se eu também sou babaca, é por pura estupidez, não por essência.
-Eu sou estúpida às vezes, mas é por estupidez mesmo.
-É tudo uma grande estupidez e o mundo não faz o menor sentido. Eu não consigo nem me divertir com tanta estupidez entupindo a minha cabeça.
-Existe um plural para estupidez?
-Sabe o que é mais nojento?
-"Estupidezes".
-Eu fico triste pensando em pessoas estúpidas.
-Estúpidas como eu?
-Não, você não é uma dessas pessoas.
-Por que?
-Eu não estou desvalorizando a sua estupidez, mesmo...
-Ainda bem.
-... e acho que ela é tão boa quanto a minha...
-Eu entendi o que você quis dizer.
-... mas se eu pensasse em você, não seria só estúpido da minha parte, como também seria desprezível da sua.
-Desprezível da minha parte? Isso eu não entendi.
-Porque eu só possuo a capacidade de ocupar meus pensamentos com pessoas estupidamente desprezíveis.
-Queria eu ser uma dessas pessoas.
-Das estupidamente desprezíveis?
-Das que ocupam essa sua cabeça estúpida.
domingo, 5 de abril de 2015
A verdade.
Eu poderia me entregar
e implorar amores no delírio
a alguém que já me despreza
e poderia chorar em alta voz
prometendo uma bondade que
ninguém nunca vai entender.
Toda enfermidade tola enfrentada
seria motivo de choro e briga
(como foi em tantos meus passados
quando eu me ofereci à paz
e a paz cuspiu na minha cara).
Será assim que a vida funciona?
Ninguém nunca vai me devolver
todo tempo que eu perdi sendo
miseravelmente bom, mas
toda a minha malevolência vai,
eventualmente, acabar sendo
confundida com brandura?
Então foda-se esse teu amor.
Eu quero explodir pessoas.
(a)
e implorar amores no delírio
a alguém que já me despreza
e poderia chorar em alta voz
prometendo uma bondade que
ninguém nunca vai entender.
Toda enfermidade tola enfrentada
seria motivo de choro e briga
(como foi em tantos meus passados
quando eu me ofereci à paz
e a paz cuspiu na minha cara).
Será assim que a vida funciona?
Ninguém nunca vai me devolver
todo tempo que eu perdi sendo
miseravelmente bom, mas
toda a minha malevolência vai,
eventualmente, acabar sendo
confundida com brandura?
Então foda-se esse teu amor.
Eu quero explodir pessoas.
(a)
sábado, 4 de abril de 2015
A sete chaves.
ah! se meus dedos falassem
e o teu corpo entoasse
a verdade de nós três
e se a confusão cansasse
pouco mais do que ela cansa
nessa dança da nudez
ah! se a escuridão secasse
todo resto de luxúria que
deixamos para trás
e se o meu lençol gritasse
e os segredos ecoassem
nos ouvidos dos mortais
ah! se a minha cama ouvisse
tudo que a boca disse
tudo que essa boca fez
e se meu caminho torto
me indicasse o porto
de retorno à lucidez
ah! se meus dedos falassem!
e o teu corpo entoasse
a verdade de nós três
e se a confusão cansasse
pouco mais do que ela cansa
nessa dança da nudez
ah! se a escuridão secasse
todo resto de luxúria que
deixamos para trás
e se o meu lençol gritasse
e os segredos ecoassem
nos ouvidos dos mortais
ah! se a minha cama ouvisse
tudo que a boca disse
tudo que essa boca fez
e se meu caminho torto
me indicasse o porto
de retorno à lucidez
ah! se meus dedos falassem!
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Ode ao abstracionismo.
Quero que tua lembrança se borre na minha mente como a minha bondade borrou na tua. Quero não te almejar a cada passo e não te desejar a cada segundo, que teu perfume não me pertença e que tua presença não me faça pertencer. Desejo te amar como amei a chuva que passou. Quero que passes como a chuva, amor, que o vento te leve e não traga mais. Quero teu suor, tua pele, tua voz e teu desejo, mas quero-os longe. Minto: eu os quero perto, mas mais eu quero não querer. Quero-te chorar de uma só vez, não desejar-te na embriaguez e te entregar às forças do desprezo. Quero não te falar, não te ouvir e não te admitir, pois tua existência é fatal pra mim - como a desesperança é fatal pro crente, como o silêncio é fatal pro político e pro filósofo. Tua volúpia é minha queda, teu corpo é meu pecado. Mas teu presente, amor, é meu passado.
(a)
(a)
Inspira-me.
A inspiração normalmente vem da desgraça ou do prazer. Não posso me dizer desgraçado: nenhum infortúnio me ocorreu ou, se ocorreu, me desceu a garganta com o rum. Quanto ao prazer, queria eu não estar provido de qualquer gozo que me interessa, mas estou. Na situação atual, não me encontro em nenhuma das situações favoráveis a um escritor. Não me é fatal, mas não me é cômodo. Para o poeta, não amar é não sentir e não sentir é não viver.
Mas eu não sou poeta.
Eu sou só esterco.
Para mim, não viver é não viver, não amar é não amar e não sentir é não escrever.
E infelizmente, caros redatores, não escrever é não comer.
- T.
Mas eu não sou poeta.
Eu sou só esterco.
Para mim, não viver é não viver, não amar é não amar e não sentir é não escrever.
E infelizmente, caros redatores, não escrever é não comer.
- T.
Desgraça-me.
Dona do desejo e da
Volúpia: eu te almejo.
Eu quero exercitar em ti
Meu ócio, meu ácido
Humor e desumor
Meu desnudo desdém
Desinteressante e
Desumano, descabido,
Que se foda! Que se
Exploda a todo vapor
E que o calor do fogo
Te dispa e te disponha
A desrespeitar meu sono
A despedaçar meu ser.
Destrua meu conhecer e
Rasgue-me, acabe-me!
Desinteresse-me e nos
Descarte-me, eu aceito:
O tratamento me condiz.
Volúpia: eu te almejo.
Eu quero exercitar em ti
Meu ócio, meu ácido
Humor e desumor
Meu desnudo desdém
Desinteressante e
Desumano, descabido,
Que se foda! Que se
Exploda a todo vapor
E que o calor do fogo
Te dispa e te disponha
A desrespeitar meu sono
A despedaçar meu ser.
Destrua meu conhecer e
Rasgue-me, acabe-me!
Desinteresse-me e nos
Descarte-me, eu aceito:
O tratamento me condiz.
Conjunto unitário.
Minha razão é a nostalgia, minha obsessão é o arrependimento: quero nunca ter chegado, quero nunca ter saído. Durante o dia, procuro sossego e, durante a noite, procuro torpor. Sou menos que um humano agora, sou um inumano. Depois do meu último nós, vivi e viciei-me no mais terrível dos males, a mais absurda das virtudes: a esperança. Esperei nela o meu bem, mas tu jamais retornaste, Bondade! Que será que te fez sofrer tamanho esquecimento? Não me vês mais como sou?
Será possível ter-me só nesse conjunto de nós dois?
(a)
Assinar:
Postagens (Atom)