Todo pecado, por ser pecado, seduz a vontade.
A escuridão toma o homem como a o algodão absorve a água, induzindo-o à sua vontade primordial: Não obedecer.
E então, ao não obedecer, o homem perece diante à vontade divina.
---
É uma tarde nublada, como todas as outras tardes naquele lugarzinho infernal.
Aquela secretária idiota está fazendo o mesmo trabalho de sempre, levando duas vezes mais tempo do que deveria.
Como sempre.
Ela não é particularmente bonita, mas tem um par de coxas grossas e lisas, daquele tipo que seduz a vontade.
Um homem, provavelmente seu chefe, vai de encontro a ela e a faz corar. Sussurra algo no ouvido dela que não é digno de um homem de aliança e paletó. A moça, diante disso, para de escrever por um instante enquanto o patrão caminha de volta para a sua sala.
Com seu olhar de inocente malícia, a secretária passa a escrever mais rápido do que antes enquanto tenta esconder um sorriso que mereceria um prêmio para pessoas especialmente burras, se houvesse um.
De repente, seu olhar atravessa a sala e encontra sua bolsa. A mulher corre em direção a esta, tira de lá um frasco e borrifa em si mesma algumas vezes. Pega alguns papéis e uma pasta e se dirige para a sala do bem apessoado canalha, que a espera enquanto quebra uma bala de menta na boca.
Os dois, por mais distantes que sejam intelectualmente - a primeira, uma estúpida secretária que mal conseguiu completar o ensino médio. O segundo, um bem sucedido filho da puta. - seus corpos se atraem com a rapidez de duas cargas fortes e opostas, que têm como único empecilho as peças de algodão e linho que se desfazem no carpete do chão. As chamas, embora invisíveis, se encontram ali, no calor do momento. Não fazem parte de um mundo material e físico, mas de algo que só existe na mente daquelas pessoas e na sua. O mundo das idéias, dos pecados e do perdão.
Aquilo é o inferno.
O momento, o calor, o segredo.
O paraíso da perdição.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Tudo.
Um escritor senta em sua poltrona com um copo de café na mão, um livro na outra e o mundo inteiro ao seu redor.
Não vê tudo além do livro, mas no livro contém tudo, pois é exatamente o livro que desvia a sua atenção para o mundo.
O mundo olha para o poeta, o poeta toma um gole do café e o café é o mundo.
Nada, em sua totalidade, é menos do que tudo, isso inclui o café e o poeta.
Mas não inclui o mundo.
O mundo não é tudo, pois sempre foi tratado como tal.
E dentro de um já suposto tudo, existem muitos outros tudos para serem considerados.
Não vê tudo além do livro, mas no livro contém tudo, pois é exatamente o livro que desvia a sua atenção para o mundo.
O mundo olha para o poeta, o poeta toma um gole do café e o café é o mundo.
Nada, em sua totalidade, é menos do que tudo, isso inclui o café e o poeta.
Mas não inclui o mundo.
O mundo não é tudo, pois sempre foi tratado como tal.
E dentro de um já suposto tudo, existem muitos outros tudos para serem considerados.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Coca.
Suas pupilas guardam a escuridão da alma, seu silêncio esconde o ódio por si, por outro, por mundos, pelo tempo. Ela afasta aqueles ao seu redor, se esconde da luz que a cerca, respira a morte. Ela se afoga em mágoas esperando chegar à superfície, desiste de si mesma e desiste de desistir. Vive, mas sem viver. Cultua o mal estar, despreza o futuro e secreta destruição. É paradoxo que espera ser salvo pela razão.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Lamento Materno.
Desanimada maré,
Porém nada é
Eterno em mim.
Que venha o terno então!
Seja de ilusão teu voo, partida,
Assim, não vou reclamar besteiras
Muito menos, sofrida, chorar
Dores de cabeceiras, amores
Triste-magoados.
Mas foi tão pouco por mim
Que viste passados, choraste
Em outros, meus anos dourados!
Me sento e rio
Do rio em que vi-o nadar
Rio que já vira mar.
Porém nada é
Eterno em mim.
Que venha o terno então!
Seja de ilusão teu voo, partida,
Assim, não vou reclamar besteiras
Muito menos, sofrida, chorar
Dores de cabeceiras, amores
Triste-magoados.
Mas foi tão pouco por mim
Que viste passados, choraste
Em outros, meus anos dourados!
Me sento e rio
Do rio em que vi-o nadar
Rio que já vira mar.
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Fuja.
Os mosquitos não vão parar de morder seu pé, aquela moça bonita acha você insuportável e o dia não vai ser melhor amanhã. Seu alarme não vai tocar, os problemas dos outros não são tão simples assim e você não vai conseguir resolvê-los. Você não é o herói da história e muito menos o vilão. Ninguém vai notar se você não aparecer, encontros perfeitos não existem e você não é tão inteligente quanto pensa. O passado não vai voltar, ninguém liga para suas dores e para os seus dramas. Não vai ser uma mulher que te fará melhor e outras virão pra te provar isso. Não existe gente boa o suficiente que queira alguém assim. O mundo não é bom, você não pode sempre fugir da chuva e todos estão te evitando. A mulher do metrô não vai sorrir pra você, você não vai ganhar na loteria e não vai roubar um banco. Você não pode se culpar pelo estrago que o mundo lhe fez e não pode consertar o estrago que ele fez nos outros. Não existe vida após a morte, não se pode prever o futuro e você vai fracassar em ser extraordinário. Sua opinião não é uma verdade absoluta, seu raciocínio não é perfeito e você não é Deus.
Você não é Deus.
E ela não vai voltar.
domingo, 22 de setembro de 2013
Gota.
É um dia frio com pessoas frias.
Nada de bom acontece, mas o tempo continua a passar.
Em uma rua particularmente comum,
um ar condicionado particularmente comum está ligado.
E então uma gota cai.
Enquanto cai, o homem no sétimo andar do prédio ao lado grita com a mulher.
O filho do padeiro da esquina se queima com o calor do tabuleiro.
A empregada do segundo andar se masturba pensando no primo,
o porteiro da outra rua descansa os olhos e o escritor chora.
A dona do apartamento do segundo andar está,
enquanto a gota cai,
anotando um número de telefone,
um pouco distante dali.
O homem da cobertura está fora,
a criança do nono andar pensa em se tornar artista
e a gota continua a cair.
Por que o escritor chora?
A gota chega ao chão.
E o chão chora com o escritor.
Nada de bom acontece, mas o tempo continua a passar.
Em uma rua particularmente comum,
um ar condicionado particularmente comum está ligado.
E então uma gota cai.
Enquanto cai, o homem no sétimo andar do prédio ao lado grita com a mulher.
O filho do padeiro da esquina se queima com o calor do tabuleiro.
A empregada do segundo andar se masturba pensando no primo,
o porteiro da outra rua descansa os olhos e o escritor chora.
A dona do apartamento do segundo andar está,
enquanto a gota cai,
anotando um número de telefone,
um pouco distante dali.
O homem da cobertura está fora,
a criança do nono andar pensa em se tornar artista
e a gota continua a cair.
Por que o escritor chora?
A gota chega ao chão.
E o chão chora com o escritor.
Cegueira.
Estou nas mãos do destino, em um desejo irrefutável, imutável, irresponsável e inacreditável pela falta - da falta da falta - de vida. Suo a vontade de alegria, me recuso a inalar mais alguma coisa que não seja esse cigarro. Meu presente é de cinzas, meu passado de cetim e meu futuro é de ausência. Ausência do próprio futuro, talvez. (De mim?) Certo como a morte de agora, meus olhos não vêem mais a luz - ou a luz já não me vê. Minha alma é vazio infinito - se é que existe qualquer outro vazio - de um universo sem estrelas.
E o que sobra? O que existe, se não pode ser visto?
A escuridão.
A negrura da alma, do mundo.
Estou cego para o amor.
Estou morto.
E o que sobra? O que existe, se não pode ser visto?
A escuridão.
A negrura da alma, do mundo.
Estou cego para o amor.
Estou morto.
Assinar:
Postagens (Atom)